Ensino Superior

Duas semanas de acampada pela Palestina em Coimbra: “ou ficamos do lado certo da história ou (…) do lado do genocídio”

Por Tomás Araújo Barros

Grupo espera nova resposta do reitor sobre acordos entre Universidade de Coimbra e entidades israelitas. Acampamento tem implicado sacrifícios pessoais dos estudantes envolvidos. Por Clara Neto

Entre os reflexos vermelhos, verdes, pretos e brancos estão instalados, já há duas semanas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), um grupo de jovens. É no meio de 14 tendas que, diariamente, os membros da acampada estudantil pela Palestina têm persistido pelas suas reivindicações, enquanto aguardam uma nova resposta por parte da reitoria da Universidade. 

Tomás Araújo Barros
Tomás Araújo Barros

Na tarde particular onde se marcava uma semana de acampada o sol intensificava-se nos degraus da faculdade e contra as janelas das salas de aula já praticamente esvaziadas pelo final do ano letivo. Passava discretamente a direção da instituição. Os jovens conversavam sobre as próximas tarefas no acampamento. Inicialmente, a acampada teve como modelo outras a nível internacional, como as que se têm dado nos Estados Unidos da América, ou até as que tiveram lugar em Lisboa e no Porto, poucos dias antes do posicionamento em Coimbra. Para Maria João Gonçalves, estudante e membro da acampada, “tudo o que tenha a ver com mudança social tem mais força se houver um uníssono global”. 

Preparar um acampamento num campus universitário provou ser um processo natural, contando a estudante em tom de brincadeira que “já toda a gente acampou”. Para si, foi algo “muito orgânico”, que fazia sentido no seguimento das assentadas que o grupo já tinha realizado durante cerca de duas semanas, no Largo D. Dinis. Além da logística normal de um acampamento, estão a utilizar todo o material que foram recolhendo ao longo dos últimos sete meses, a cargo do coletivo Coimbra pela Palestina. Montaram “uma espécie de linha de liberdade”, nas palavras de Maria João Gonçalves. Um espaço que é preenchido pela diversidade de livros, pelos sons de instrumentos tradicionais e pelos cânticos de união e contestação: 

Tomás Araújo Barros

O desafio de obter uma nova resposta do reitor da UC, Amilcar Falcão, permanece. “É preciso que exista, pelo menos, uma abertura negocial, porque o objetivo último do grupo é manter-se firme e comprometido com as reivindicações exigidas”, assegura Maria João Gonçalves. Por estarem tão perto da reitoria da Universidade, acredita que o reitor “não tem como dizer que não sabe disto”. O coletivo quer ainda sinalizar a restante comunidade académica pelo meio de petições públicas, já disponíveis para assinar, e promover culturalmente o seu espaço. 

Ouvem-se as seguintes clamações: “bebem água, mantenham-se hidratadas” e “vou estudar um bocado”. O acampamento tem revelado impactar a vida pessoal de quem nele participa. Como admite Maria João Gonçalves, tem sido um “sacrifício” que implica adiar tudo o resto. Confia que é fundamental saber gerir duas emoções – a raiva e a esperança – de forma a encontrar “um balanço que permita uma ativação” para continuarem a resistir. A estudante declara que tomar posições desta índole permite um “poder transformador”, que “vale sempre a pena, especialmente em causas como esta”. A seu ver: “ou ficamos do lado certo da história, do lado do direito à vida, ou ficamos do lado do genocídio”. 

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Com o nascer do dia a acordar as tendas, o acampamento reune diariamente para um balanço das estratégias que têm sido tomadas, o que envolve “questões de opinião pública, o que é que está a correr bem ou mal e a própria gestão emocional dos membros”, de acordo com a estudante. As principais refeições do dia são comunitárias, onde a comida é garantida por repúblicas de estudantes. Para passar o tempo, vão dividindo e concretizando tarefas que contribuem para o desenvolvimento do acampamento. Com megafones, atualizam a comunidade académica sobre a ofensiva na Faixa de Gaza. Para concluir, organizam assembleias abertas, por volta das 21 horas. Este é um típico dia na acampada pela Palestina, em Coimbra. 

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