Cidade

Vozes de Coimbra descontentes com a venda do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova

Francisca Costa

Diminuição de espaços culturais e ameaça à extinção da Bienal em Coimbra como mote de assembleia organizada por República dos Inkas. “Será que se justifica abrir um hotel de luxo em Coimbra?”, questionou membro da Porta Adentro. Por Francisca Costa

Pelas 18h30, a República dos Inkas organizou uma assembleia no Museu Nacional Machado de Castro para a discussão da Anozero’24 – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, em relação aos problemas que a sua localização tem levantado e a concessão de propostas relativas ao tema. Com o objetivo delineado para a audição de diferentes pontos de vista subordinados à questão, Maria João Gonçalves, residente na República dos Inkas, delimitou a ordem de trabalhos: teve como início a contextualização da situação atual Bienal, passando à explicação do que a perda da Bienal significa para a cidade e, por fim, o que é possível fazer a respeito.

No presente, a Anozero’24 – Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra ocupa o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova que, por necessidade de reabilitação do espaço e falta de condições de financiamento público para o efeito, foi submetido a candidaturas do projeto Revive, financiado pelo Programa de Recuperação e Resiliência. Um projeto que aplica fundos públicos para fins turísticos e culturais, “não está a servir a cultura”, ressaltou Maria Carneiro, residente na República das Marias, uma vez que, apesar de não ser “obrigatório abrir hotéis, é o que tem acontecido”, continua. A transformação e capitalização do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, submetido a este projeto, passa assim à tripartição deste local: mantém a função religiosa, dedica 600 metros quadrados a atividades vinculadas à Câmara Municipal de Coimbra, e o resto do edifício é concedido ao projeto de transformação num hotel de quatro estrelas.

A reflexão sobre o assunto levantou questões de gentrificação, ambiente, e descuramento da cultura na cidade. De seguida, Maria Carneiro apontou que a “tocha luminosa” que é o selo de Património Mundial da UNESCO da Universidade de Coimbra gera dois movimentos distintos que caracterizam Coimbra: a academia e os eventos anuais relacionados, e o turismo, sobretudo de abril a novembro, que gera um “grande investimento nesta sazonalidade em Alojamento Local (AL)”. Maria Batista, membro do movimento “Porta Adentro” questionou se se justifica “abrir um hotel de luxo em Coimbra”, uma vez que o alojamento não está lotado, e não se quer “a diminuição dos espaços culturais numa cidade que se orgulha em ser a cidade dos estudantes”, completa. Como exemplos deu, além da transformação do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova num hotel, a reabilitação das repúblicas e casas da Alta para AL.

O risco de perder a Bienal, pelo condicionamento do espaço, tendo em conta as necessidades que demanda, foi a principal preocupação cultural apresentada. A opção de alteração do espaço para o antigo hospital pediátrico não é vista como uma solução viável. “O mosteiro está a cair, não há financiamento público, então arrastaram a Bienal para outro edifício a cair”, destacou Maria Carneiro. Para Mariana Costa, residente na República do Kuarenta, a possível perda da Bienal em Coimbra adiciona um exemplo “à degradação em termos de espaço que a cultura testemunha”. Deste modo questionou “a atratividade da cidade para se justificar a edificação de alojamentos em massa”.

Como considerações finais, foram apresentadas preocupações ecológicas. “Qualquer edifício de luxo é um desastre ambiental”, salientou Maria João Gonçalves, pelo uso excessivo de materiais que ficam sem utilidade. De igual modo, a consciencialização da comunidade conimbricense perante o crescimento de alojamentos, diminuição de espaços culturais e alteração da vida dos habitantes locais foi a solução encontrada pela assembleia para a problemática apresentada.

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