Opinião

“O Rapaz e a Garça” é a síntese do legado de um criador de mundos

Por Guilherme Borges

Dirigido e escrito pelo lendário Hayao Miyazaki, o filme vencedor do Oscar de melhor animação de 2024 conta a história de Mahito, uma criança que perdeu sua mãe em um incêndio durante a Guerra do Pacífico e se mudou de Tóquio para o interior do Japão. Em sua nova casa, o protagonista conhece a segunda esposa de seu pai e sente dificuldade em reconhecê-la como uma “substituta” de sua mãe. Durante essa tentativa de adaptação à uma nova realidade e com os traumas do conflito e do luto ainda presentes, Mahito encontra uma garça falante que o leva para um mundo paralelo fantástico. “O Rapaz e a Garça” estreou nos cinemas portugueses em 9 de novembro de 2023 e regressou à Casa do Cinema de Coimbra em 13 de maio de 2024.

Em 2013, Hayao Miyazaki anunciou que “Vidas ao Vento” seria seu último filme. Contudo, o fundador do prestigioso Studio Ghibli presenteou a indústria da animação com mais uma obra de arte, 10 anos depois. É impossível falar de “O Rapaz e a Garça” sem mencionar uma fração da filmografia de seu diretor e roteirista: “Nausicaä do Vale do Vento”, de 1984, “O Serviço de Entregas da Kiki”, de 1989, “A Princesa Mononoke”, de 1997, “A Viagem de Chihiro”, de 2001, “O Castelo Animado”, de 2004 e “Ponyo”, de 2008.

O motivo dessa crítica começar com uma exposição do currículo desse animador japonês é simples, o filme em causa é o resultado de mais de quatro décadas de experiência e maestria. Além disso, mesmo com cada filme sendo individual e sem continuações, todas as animações de Hayao Miyazaki compartilham um conjunto de valores em comum. A defesa da natureza, o discurso antiguerra, o protagonismo feminino e, principalmente, crianças ou adolescentes que enfrentam as adversidades com dedicação e bondade são as principais mensagens presentes em seus filmes.

A sensibilidade com que esses temas são tratados em “O Rapaz e a Garça” é fenomenal, o espectador sente a dor e a luta dos personagens, assim como sua coragem e felicidade. Quem tiver a oportunidade de apreciar esse filme também vai ser afetado pela animação de tirar o fôlego, por exemplo paisagens surreais que só podiam ser imaginadas em sonhos e que permeiam o longa-metragem do começo ao fim. Outra característica clássica da filmografia desse diretor e roteirista é a sua parceria com o compositor Joe Hisaishi que, na obra em questão, é responsável por dar vida aos momentos de maior tensão e suspense assim como de paz e tranquilidade.

É importante notar que o enredo pode parecer um pouco confuso, o ritmo da história varia entre um começo lento, da criação de uma atmosfera de mistério, para um final acelerado, com diversas peças em movimento. Por isso, o espectador deve ir ao cinema com a mente aberta e com vontade de mergulhar em uma aventura junto do protagonista. A narrativa em si não é estruturada com base na razão, muito é deixado sem explicações porque o objetivo do filme não é preencher todas as lacunas. Hayao Miyazaki provoca emoções que fazem com que cada pessoa se questione “como você vive?”, pergunta que faz o título japonês original.

Eu assisti “O Rapaz e a Garça” duas vezes e, na primeira sessão, confesso que estava eufórico de tanta expectativa, afinal vi todos os filmes de seu diretor e roteirista quando ainda era criança e os reassisti incontáveis vezes ao longo dos anos. Porém, isso me cegou e fui impossibilitado de aproveitar naturalmente a experiência. Essa animação não é “A Viagem de Chihiro”, mesmo tendo uma criança como protagonista que enfrenta uma dimensão alternativa cheia de perigos, e também não é “A Princesa Mononoke”, mesmo com criaturas fantásticas que encantam e ameaçam os personagens centrais.

O que eu quero dizer é que, mesmo com as irrefutáveis referências aos filmes feitos ao longo de 40 anos por Hayao Miyazaki, “O Rapaz e a Garça” é incrivelmente diferente de tudo que já vi. Na primeira vez que assisti, em dezembro, estava esperando algo que me desse o mesmo impacto de rever um filme de conforto, como a filmografia inteira do Studio Ghibli – eu queria uma nostalgia imediata. Isso resultou numa sensação agridoce, saí do cinema confuso e demorei muito tempo para processar o que presenciei em 124 minutos.

Minha experiência com esse filme mudou dramaticamente quando o vi pela segunda vez, na Casa do Cinema de Coimbra. Além de novos detalhes que percebi e partes do enredo que fizeram mais sentido, reparei nas reações de quem estava na mesma sala. Mesmo sem conseguir ver as suas expressões, as pessoas riam nas cenas de comédia, elogiavam aos sussurros as paisagens mais deslumbrantes e caíam em silêncio nos momentos de maior suspense. A magia de Hayao Miyazaki hipnotiza todas as faixas etárias e as salas de cinema são templos sagrados onde as pessoas são expostas à mesma expressão artística e, felizmente, saem com suas próprias interpretações.

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