Críticas

Em “Guerra Civil”, a primeira vítima é o roteiro

Por Guilherme Borges

Dirigido e escrito por Alex Garland, o filme trata de um conflito interno ficcional, mas provável para a atualidade, nos Estados Unidos da América (EUA). Lee (Kirsten Dunst) e Joel (Wagner Moura) são veteranos correspondentes de guerra pela Agência Reuters que querem entrevistar o presidente dos EUA (Nick Offerman), antes que Washington D.C. seja tomada pelas forças dos estados rebeldes. Os protagonistas são acompanhados por Sammy (Stephen McKinley Henderson), um jornalista idoso do New York Times e por Jessie (Cailee Spaeny), uma fotojornalista amadora que idolatra o trabalho de Lee e aspira ser igual a ela. “Guerra Civil” estreou nos cinemas portugueses em 18 de abril.

A ideia de uma balcanização dos EUA é criativa, mas Garland escolhe não investir tempo para explicar a dissolução do país mais poderoso do mundo em várias fações. Consigo respeitar essa decisão, afinal cair de paraquedas em uma guerra civil que está prestes a chegar em seu clímax também é uma ideia interessante. O grande problema é que, mesmo assim, o filme sofre com uma despolitização exagerada do conflito, que resulta numa mensagem superficial de “a guerra é ruim”.

Essa suposta superioridade moral, de um centrista covarde que enxerga a realidade confortavelmente por cima do muro, também é traduzida no verdadeiro foco do longa-metragem: o jornalismo. Alex Garland, em pleno 2024, acredita na corrente positivista do jornalismo, ou seja, a ideia de que os jornalistas devem ser atores neutros, imparciais, passivos e alienados para com o mundo ao seu redor, e que seu trabalho é apenas registrar os factos. Esse pensamento, do século XIX, não dialoga com a realidade atual, em que os maiores jornais do mundo usam a voz passiva para relatarem um genocídio e em que os verdadeiros jornalistas de guerra são assassinados por fazerem o seu trabalho.

O filme é, ou pelo menos tenta ser, um conto preventivo sobre o perigo da polarização nos EUA e como um conflito bélico sempre traz destruição e sofrimento. A importância de uma imprensa livre e objetiva, comprometida com os factos, e nada além dos factos, também é um dos focos de Garland. Porém, em mais de um momento dos 109 minutos de “Guerra Civil”, a violência é romantizada, com uma trilha sonora energética e cenários coloridos que lembram filmes de super-heróis.

O roteiro não é coerente, uma hora parece uma idealização da violência, com o personagem de Wagner Moura apreciando a adrenalina que o seu trabalho lhe proporciona e, em outro momento, pretende mostrar a realidade fria e trágica da guerra, como um documentário. Um desses momentos é a cena com o Jesse Plemons, conhecido por interpretar o psicopata Todd nas últimas temporadas de “Breaking Bad”, que é com certeza minha parte favorita do filme. Não pretendo dar muitos spoilers, mas fiquei desesperado e aterrorizado com a sua participação.

Aproveitando que citei a minha cena favorita, vou destacar os poucos pontos positivos desse filme. A sonoplastia é surreal, tiros e explosões são frequentes e sempre impactantes e, nesse sentido, as incontáveis cenas de ação também foram memoráveis. Mas, para um filme com uma premissa tão criativa, eu esperava que o foco fosse no próprio contexto político e no desenvolvimento dos personagens. Personagens que, infelizmente, não são bem desenvolvidos. “Guerra Civil” pode ser resumido em um filme com uma boa ideia, mas uma péssima execução. Os personagens tinham tudo para serem interessantes e acabaram sendo desperdiçados por causa de um roteiro fraco, superficial e vazio.

Wagner Moura está irreconhecível, e não num bom sentido. Um ator renomado no Brasil e internacionalmente por suas performances como Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite”, e Pablo Escobar, em “Narcos”, Moura não foi capaz de me cativar enquanto Joel. Acredito que a culpa seja de Alex Garland, diretor e roteirista, por não saber aproveitar tamanho talento em suas mãos. Na competição de Joels latinos que percorrem os EUA numa ‘road trip’ apocalíptica, Pedro Pascal de “The Last of Us” ganha.

A dinâmica entre Lee e Jessie também é vítima do problema central do filme, “boa ideia e péssima execução”. Lee é extremamente profissional e já viu de tudo na sua carreira de fotojornalista, enquanto Jessie é uma amadora que ainda não desenvolveu estômago para as cenas de terror que pretende capturar com sua câmera. Essa relação é jogada no lixo com um final tosco, mesquinho, pobre e sem sentido que só serve para chocar o espectador.

Em suma, Alex Garland, conhecido por filmes excelentes como “Ex Machina”, peca várias vezes ao não saber aproveitar suas ideias e seu elenco. A antiga máxima de “na guerra, a primeira vítima é a verdade” é ignorada completamente, já que a propaganda é sempre carregada de ideologia e Garland quis fazer o impossível: retratar uma guerra sem política. Mesmo com uma cinematografia encantadora e momentos excepcionais de verdadeiro terror, “Guerra Civil” é vazio e desinteressante pela sua execução indiferente e apática.

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