Críticas

Dias Perfeitos: a réstia de sol nos bons e velhos hábitos

Por Iris Jesus

Na banalidade que contempla a nova longa-metragem do realizador alemão Wim Wenders, “Dias perfeitos” é só a tradução portuguesa de uma música de Lou Reed. Da autoria da pessoa que imaginou o reconhecido filme “Paris, Texas”, marcado pela sua constância de ação, “Dias Perfeitos” destaca-se por espelhar apenas uma premissa: todos os dias são iguais. De manhã, Hirayama, personagem principal da longa-metragem interpretado por Koji Yakusho, acorda no seu velho apartamento e repete a sua rotina habitual. Dirige-se para o trabalho, nas casas de banho públicas da cidade de Tóquio, e, sozinho a todos os momentos, pode passar dias e dias sem murmurar uma palavra. 

Somente na plenitude da sua própria companhia é que Hirayama verdadeiramente se revela. Sozinho, no carro, pela manhã e pela tarde, ouve The Animals, The Velvet Underground, Patti Smith, Otis Redding , The Kinks, Rolling Stones e Etta James, entre outros músicos norte-americanos e japoneses que acompanham o seu dia-a-dia. Consigo, carrega sempre uma câmara analógica, com a qual fotografa as réstias de sol entre as árvores, e, pela noite, segura um livro entre os dedos e lê. Estes são hábitos que repete, todos os dias, na rotina do “sempre-igual”. Entre interações caricatas com o seu colega de trabalho, que insiste em continuamente avaliar os eventos da sua vida numa escala de zero a dez, empréstimos das suas cassetes a jovens misteriosas e uma visita interessante da sua sobrinha, os dias vão passando numa monotonia em rebeldia que, por vezes, sai do comum.

Segundo Wim Wenders, inicialmente, a longa tinha o nome de ‘Kumorebi’, expressão japonesa. Esta palavra traduz-se no sentimento de passear pela floresta no início da manhã ou fim da tarde e ver os raios de sol a dividir-se pelas folhas das árvores. Em “Dias Perfeitos”, a semelhança ao ‘Kumorebi’ é explícita. Os dias começam e acabam numa simplicidade exacerbada, cuja beleza apenas quem a contempla pode ver. Dentro de uma rotina que se torna familiar e confortável ao espectador, a beleza do quotidiano de Hirayama está no cumprimento e na despedida, que parecem saber a pouco. Faltam palavras, gestos, falta a diferença dentro do igual, faltam as consequências dos vários eventos pelos quais Hirayama passa, a sensação constante de que cada dia é um caso isolado, nada do que aconteceu ontem se vai repetir amanhã. 

Num filme em que quase não se fala, o argumento de Wim Wenders brilha por isso mesmo: não há ‘clímax’, ou uma ação que mude o destino da história. Mesmo os acontecimentos que parecem determinantes para uma alteração do rumo, não o são. No seu quotidiano, Hirayama encontrou paz na forma poética em que vê o mundo – num desafio da linha ténue entre a intelectualidade e o trabalho. O uso de planos próximos da cara do ator, com foco no frequente recurso a ‘medium close-ups’, revelam também a intenção do realizador de aproximar o espectador à realidade do personagem. Hirayama é todos nós. E, para nós, todos os dias são iguais.

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