Cultura

Retrato de Portugal no pós-Revolução fomenta diálogo às portas do 25 de Abril

Bruna Fontaine

Debate incitado por livro que recorda rede-bombista de extrema-direita. Autor acredita que permanência na democracia “é um trabalho de todos nós, todos os dias”. Por Bruna Fontaine e Leonor Viegas

No âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, a Casa Municipal da Cultura acolheu uma tertúlia à volta do livro Quando Portugal Ardeu, da autoria de Miguel Carvalho, jornalista ‘freelancer’. O evento, organizado pelo Ateneu de Coimbra, teve início às 18h30 do dia 22 de abril e contou com a presença do autor. A dinâmica procurou tirar dúvidas sobre a obra, processo de redação e a rede bombista de extrema-direita do pós-Revolução. Devido à carga informativa da obra o autor refere que o livro já não é seu, “está a conquistar gente e a fazer curto-circuito em algumas cabeças, e isso é parte do meu trabalho”.

A investigação partiu dos arquivos que Miguel Carvalho confessa acumular em casa e de memórias que guarda da sua infância. O autor conta que “em criança não tinha maturidade para entender o contexto político da época” e chegou à conclusão de que muitos colegas de profissão, mesmo os da sua geração, “não sabiam da existência desse período negro da história”. O jornalista declara que se tinham “passado anos sem que este tema tivesse sido aprofundado”. Sublinha ainda que se fala de “cerca de 600 ações terroristas” e relembra que apenas “a arraia miúda” da organização foi condenada. Considera que esta é uma das grandes falhas de justiça do país, em que os orquestradores e financiadores das operações “nunca se sentaram no banco do réu”.

Segundo o jornalista, ainda existem pessoas que participaram ou combateram contra a rede bombista que podem trazer à luz do dia as histórias escondidas por trás dos bastidores. No entanto, ao longo da pesquisa “algumas portas foram fechadas”, pois mesmo passados tantos anos, os envolvidos não se sentiam seguros a falar. Apesar de haver documentos aos quais não conseguiu aceder, recorda que “há muita gente neste país que guarda papéis”.

Miguel Carvalho revela que um dos principais testemunhos foi o Coronel António Ferreira da Silva, que, mesmo sem acreditar na rede bombista, liderou as investigações à organização através da Polícia Judiciária Militar. No entanto, “concluiu que afinal era muito pior do que imaginava”, conta o autor. Expõe ainda que, além dos relatórios oficiais, o agente guardava um diário onde relatava ao pormenor as reuniões em que participava. O coronel sabia por experiência própria que algumas questões que ia levantar podiam ser polémicas e mostrou alguma resistência, explica o jornalista. “Há coisas que não estão bem resolvidas na sociedade portuguesa, estão apenas e só varridas para debaixo do tapete”, ilustra. O autor confessa que ganhar a confiança das testemunhas é um processo que envolve paciência, mas considera que o jornalismo cotidiano já não tem esse tempo.

Por Bruna Fontaine e Leonor Viegas

A precariedade no jornalismo também foi um ponto na discussão e algo sublinhado por Miguel Carvalho. Para o autor, a “luta pela memória” começou a ser necessária num primeiro momento da dentro das redações, que aponta como cada vez mais despidas. “Não era ao Google [onde iam buscar informação], eram jornalistas que tinham experiência”, reflete. Assim, conclui que a substituição de profissionais “altamente qualificados”, pelo seu despedimento em massa, é uma das principais problemáticas da crise ética corrente, mas não “o pior momento da produção noticiosa em democracia”. Frisa que hoje o local de trabalho dos seus colegas é “recheado de uma nova escravatura” e que ao longo dos anos foram “tolerando o que não deviam”, o que contribuiu para o descrédito da profissão.

A falta de apoios à sua área, em especial o jornalismo de investigação, também foi abordado pelo autor. Vê nos órgãos de comunicação social ‘mainstream’ um entrave a projetos como o seu, devido à “falta de interesse e suporte”. Sobre o tema, aponta o questionamento à volta dos apoios do Estado à produção noticiosa. Miguel Carvalho acredita que as ajudas estatais deveriam existir para “combater as dificuldades provocadas pelas multinacionais”, sendo a liberdade do mercado e do capitalismo português o que fez o jornalismo “chegar a esta situação”. Nesse sentido coloca nos jovens jornalistas e nas apostas jornalísticas emergentes a sua esperança. “Trabalhos como o da revista Divergente até envergonham alguns dos ‘mainstream’, pois são produzidos com eficácia e ética”, enfatiza.

Para sensibilizar os jovens, o autor sublinha que é preciso uma nova “pedagogia democrática” que desmistifique a política através dos seus meios de interação. Acrescenta que “se for preciso ir para a lama pela democracia, temos de ir e se isso significar fazer vídeos no tiktok devemos fazê-los”. Evidencia que os novos 50 deputados da “direita radical populista” na Assembleia da República reacendeu o interesse por estes temas. “As pessoas percebem a urgência de discutir o assunto devido às narrativas da atualidade política que fazem de conta que nada disto aconteceu”, pontua sobre as histórias a que dá voz no seu livro.

Miguel Carvalho explica que “a rede bombista de extrema-direita, lutava pelo Portugal Antigo, pelo Deus, Pátria e Família, de alguma maneira reciclado”. Esta informação vem a ser afastada pela “narrativa vencedora sobre a época”, comenta. Como esta, as memórias do período da ditadura e do 25 de Abril têm, para o autor, de ser “relembrados de forma contínua aos jovens de todas as idades”. A fim de combater a desinformação e proteger a democracia, o jornalista destaca que “o CHEGA ainda é muito amador para aquilo que apresenta e essa é a nossa salvação”. Remata que “não se trata de um combate dos partidos, isto é um trabalho de todos nós, todos os dias”.

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