Crónicas

Priscilla: esculpida pelo homem, quebrada pela mulher

Por Clara Neto

Em março, a Casa do Cinema de Coimbra recebeu o mais recente filme da realizadora Sofia Coppola. Na sua essência, “Priscilla” apresenta uma narrativa de autorrevelação e, particularmente, de auto-perceção. A personagem homónima, retratada com uma despretensão notável por Cailee Spaeny, atravessa a intrincada tapeçaria da vida com um dos principais rostos da história musical contemporânea, através de uma amálgama de inocência e evolução inabalável. Contra o cenário evocativo de Graceland (residência dos Presley em Memphis), o filme encapsula habilmente o próprio espírito norte-americano das décadas de 50 e 60, envolvendo os espetadores na íntima realidade de Priscilla Presley.

Desde as reverberações cinematográficas de “Lost in Translation” (2003) e “Marie Antoinette” (2006), Coppola transporta às salas o lado negro do que aparentava ser um conto de fadas. “Priscilla” surge, assim, como uma adição a um repertório de evocação da solidão e marginalização que assombram as mulheres abrigadas sobre o paradoxo de possuir tudo e nada.

Ainda enquanto Priscilla Beaulieu, a personagem navega pela dualidade da inocência e da maturidade ao conhecer o enigmático Elvis Presley (Jacob Elordi), durante uma festa na Alemanha Ocidental, onde a jovem vivia com a sua família imigrada. Com apenas 14 anos, a sua introdução à figura lendária do ‘Rock’n’roll’ desperta uma paixão na jovem, o que não surpreende e aparenta ser quase inevitável. Na sequência deste encontro, a mundanidade da existência quotidiana, incluindo o ritmo monótono da rotina escolar, torna-se insignificante para Priscilla. 

Na ausência de Elvis, que regressa aos Estados Unidos, deixando a jovem para trás, a residência da família Beaulieu transforma-se num espaço sombrio, impregnado de uma obscuridade que espelha o próprio estar interior de Priscilla. Cada canto da casa, outrora meramente funcional e iluminado pela inocência da juventude, exala agora uma tonalidade pálida, amplificando o peso do sentimento de solidão.

Com precisão, Coppola orquestra uma narrativa a partir da perspetiva introduzida no ‘memoir’ de Priscilla Presley, “Elvis and Me”, um romance enredado nas restrições impostas às mulheres nos anos 1950. No entanto, a realizadora justapõe cuidadosamente este registo com uma lente contemporânea, semelhante à sua abordagem em “Marie Antoinette”, levando-nos dos limites da época à ressonância no presente.

O filme hesita em considerar Elvis como um predador e Priscilla como uma mera vítima da sua influência. Coppola evita essas categorizações simplistas, investigando as complexidades desta dinâmica amorosa. O foco não reside em subscrever noções de culpabilidade e pureza, mas sim em desvendar as intrincadas nuances que foram tão decisivas para a personagem principal. Além disso, a realizadora revela uma compreensão matizada do ambiente de poder que envolve Elvis. Este fator influencia não só a relação do cantor com Priscilla, mas todas as facetas da sua vida e relacionamentos. 

O filme insinua que o casal é produto de uma época muito específica. Priscilla, moldada pelas dicas publicadas nas revistas femininas tradicionais à década de 1950, esforça-se por se adaptar à visão idealizada de feminilidade de Elvis, vestindo-se conforme o gosto do artista, por exemplo. O percurso de Priscilla em direção à libertação acaba por refletir-se precisamente na escolha do guarda-roupa. À medida que a personagem adota os vestidos estampados a que Elvis se opunha veementemente por “não a favorecerem”, torna-se palpável e louvável a necessidade da sua autodescoberta e de se afirmar.

Neste universo, o mundo de Priscilla gira em torno do Homem enquanto figura de autoridade, onde nenhuma decisão é tomada pela jovem e sim pelos homens que a rodeiam. No entanto, ao sair uma última vez pelos portões de Graceland, acompanhada pelo tema original de Dolly Parton – “I Will Always Love You” – Priscilla deixa para trás quaisquer vestígios de seu antigo eu. Ela renasce ao reivindicar o direito de contar a sua própria narrativa.

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