Críticas

Os vermelhos d’A flor do buriti, da tinta do urucum e do sangue dos Krahô

Por Sofia Moreira

No passado 21 de março foi estreado o longa-metragem “A flor do buriti”, de título original “Crowrã”, na Casa do Cinema de Coimbra. Realizado pela brasileira Reneé Nader Messora e pelo português João Salaviza, o drama documental é um retrato da comunidade indígena Krahô ao longo de três épocas recentes de sua história – anos 1940, 1969 e a atualidade –, a partir da perspetiva da jovem Jotàt Krahô. Sua mãe, Ilda Patpro Krahô, foi assistente de direção, guionista e também protagonista, de maneira a evitar a visão romântica paternalista do indígena como “o outro”, distante e, portanto, passível de idealização. Através da centralização dos Krahô na sua individualidade, “o outro” se torna o não-indígena, o homem branco – ou ‘cupe’ em timbira, idioma dos Krahô – e é desta dicotomia contrária à tradição que vem o encanto da obra.

Entretanto, Salaviza e Messora oferecem muito mais pelo que se pode deslumbrar. Enquanto seu primeiro longa sobre os Krahô, “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos” (2018), acompanhou o amadurecimento de um jovem krahô e trouxe em segundo plano a luta da comunidade pela salvaguarda do seu território, “A flor do buriti” encara a invasão das terras indígenas de frente e com peito aberto. Logo nos primeiros minutos, dois meninos krahô se deparam com um boi de grandes chifres e porte numa espécie de prenúncio emblemático da ocupação agressiva do pecuarismo, que leva ao massacre violento dos Krahô. Outras manifestações da intervenção dos criadores de gado nas terras krahô aparecem ao longo do filme, bem como críticas à Fundação Nacional dos Povos Indígenas, que pouco faz para assegurar os direitos dos povos que tem como função proteger.

Antes da componente reivindicativa e de protesto, todavia, o que mais chama a atenção é a ambientação. É tudo muito sensorial: desde o canto das araras, animal emblemático para os Krahô, ao ranger das asas da cigarra e o barulho do chocalho dos cânticos nativos, o filme imerge o espetador na aldeia de Pedra Branca, no interior do Tocantins, de tal forma que quase se pode sentir o cheiro do descascar da tapioca, ou do banhar no rio com sabão de coco. As cores são outro artifício utilizado pelos realizadores: verdes vibrantes do cerrado contrastam com os tons de marrom quente do barro, com os azuis do céu, tão limpo que nele se pode ver todas as estrelas brilhando logo na primeira cena, e com o vermelho como a mais simbólica das cores.

O vermelho aparece na tinta do fruto do urucum, com a qual os Krahô se pintam para o ritual ‘Ketuwaje’, representativo da passagem dos jovens rapazes para a vida adulta. Aparece no sangue krahô derramado pelos peões que, a mando do fazendeiro da terra vizinha, invadiram a aldeia no meio da noite e assassinaram 26 indígenas. E por fim, como não podia deixar de ser, é também vermelha a flor do buriti, palmeira selvagem que cresce no território krahô e que, com sua casca dura e frutos abundantes, é tão forte, resiliente e rica quanto o povo que representa.

“A flor do buriti” recebeu o Prémio de Elenco no Festival de Cinema de Cannes, o prémio de melhor longa-metragem na 64ª edição do Festival dei Popoli, na Itália, e o de melhor filme latino-americano pela Asociación de Productores Independientes de Medios Audiovisuales, no festival Mar del Plata, na Argentina. O drama foi mundialmente reconhecido pela sua forma única de retratar um povo indígena, cujos membros desempenham seus próprios papéis, falam sua própria língua e, assim, contam sua própria história.

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