Cultura

O ‘Street Art’ que chega a todos (os academistas)

Iris Jesus

Crise Académica de 1969 e 25 de Abril de 1974 enfatizados em mural na rua Padre António Vieira. Final da taça de 1969 e manifestações estudantis compõem ilustração da obra. Por Iris Jesus

Desde o dia 2 de abril, Constança Bettencourt e João Margarido, de nomes artísticos C’Marie e Egrito, estão a elaborar o mural que adorna a rua Padre António Vieira. Esta intervenção tem o objetivo de “marcar os 50 anos do 25 de abril e os 55 anos da crise académica de 1969”, atesta André Ribeiro, vice-presidente da Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) e responsável pelo pelouro da Cultura. A contratação da dupla foi feita pela DG/AAC, na pessoa do presidente, Renato Daniel, após ver o trabalho feito por ambos para a Federação Académica de Desporto Universitário.

Apesar de o seu percurso académico ter passado pela música, escultura e pelas artes plásticas, C’Marie admite preferir “uma vertente artística mais plural, fora da área de formação”, daí a sua profissão ser o ‘Street Art’. Egrito, que se formou em design de ambiente e, posteriormente, em design de produto, partilha a visão da sua colega e conta que o trabalho da dupla se iniciou “com a venda de ilustrações em feiras”. Em 2017, iniciaram as pinturas de murais, que já passaram por espaços como a ilha da Madeira, Aveiro, Amesterdão e ornamentaram o Rock In Rio Lisboa.

Na intenção de, nas palavras de André Ribeiro, “dar vida à rua onde se situa o edifício-sede da AAC”, os dirigentes da Casa cederam fotografias alusivas a momentos “cruciais” da história da Academia aos artistas. Neste sentido, os artistas elaboraram representações visuais de quando Alberto Martins pediu a palavra, a 17 de abril de 1969, bem como da “final da taça de 1969 e da luta por uma universidade mais democrática”, revela o vice-presidente.  Desta forma, a dupla ilustrou “imagens inspiradas na realidade, com o pendor revolucionário do 25 de abril retratado nos cravos”, conta Constança Bettencourt. Já o ícone da AAC e “as mãos coloridas” são referências ao simbolismo da Academia.

Com o ornamento que enfeita o mural, André Ribeiro explica que “a ideia era mostrar a transição na Academia após as duas datas emblemáticas”. Deste modo, a obra apresenta um contraste “entre o Estado Novo e os dias de hoje, e visa a reflexão sobre a importância da continuidade da luta”. Já a parte inferior esquerda da peça “remete ao lápis azul e à censura”, em linhas azuladas, sob uma base amarela. Esta referência exemplifica como “no passado, a nível político e cultural, vivia-se um ambiente de repressão e que não se deve ter como garantidas as atuais liberdades”, declara Egrito.

André Ribeiro considera que “intervenções de ‘Street Art’ dão vida e simbolismo aos espaços”, como vê estar a acontecer na rua Padre António Vieira, agora marcada com a “história da Academia e de Portugal”. Esta visão é partilhada pelos dois artistas, que não residem em Coimbra e, devido ao seu trabalho, denotam “alguma falta de intervenções artísticas na cidade”, conta João Margarido. A dupla destaca ainda, nas palavras de C’Marie, que a passagem pelo mural “é um momento de partilha entre várias gerações”. Em nota final, a jovem acrescenta: “a ‘Street Art’ tem sempre uma história para contar, e é capaz de confrontar as pessoas com ideias, mensagens e imagens”.

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