Cultura

“O que mudou” e “o que falta fazer” em 50 anos de democracia?

Por Inês Reis

Obra sobre sucessos e fracassos do pós-25 de Abril é composta por transcrições de debates. Responsabilidade social de manter legado da Revolução realçada em painel de apresentação do livro. Por Inês Reis

Sete meses de reflexões acerca das mudanças inerentes ao 25 de abril de 1974 resultaram num livro intitulado “Portugal 50 anos depois do 25 de abril: O que mudou? O que falta fazer?”. A obra, que teve como coordenador científico João Gouveia Monteiro, foi apresentada hoje por José Manuel Pureza e Maria de Belém Roseira, no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra (UC). O restante painel era constituído pelo atual diretor da Biblioteca Geral da UC (BGUC), Manuel Portela, que moderava a conversa, e pela editora responsável pelo projeto, Cátia Simões.

A sessão foi aberta pelo moderador que, após agradecer a todos os membros da mesa, ressaltou aquilo que considera ser a característica mais “curiosa” do livro – a transcrição das intervenções orais que compuseram os debates dinamizados entre janeiro e julho de 2023.  No seu ponto de vista, este aspeto atribui à obra uma dimensão “muito ‘sui generis’” e é essencial, pois “o processo histórico está vinculado à memória”. Acrescenta que a ideia de pensar a Revolução dos Cravos como um projeto também tem “muito potencial”.

De seguida, Maria de Belém Roseira tomou a palavra e lembrou, desde logo, a importância da Crise Académica de 1969. Apesar de elogiar as dez conquistas do 25 de Abril, que os autores decidiram destacar no capítulo introdutório, a ex-ministra da Saúde mostrou-se “surpreendida” com o facto de a igualdade de género não ser mencionada com a mesma relevância. Neste sentido, o seu discurso teve como foco os direitos das mulheres, nomeadamente na abordagem científica que considera não ser “adequada às diferenças biológicas” entre sexos. A também ex-presidente da Assembleia da República enfatizou que, mesmo com a criação do Serviço Nacional de Saúde, que adveio da Revolução, ainda faltam “políticas promotoras da saúde em várias áreas, como a educação, agricultura e economia”. Termina com a ressalva de que o século XX foi de “afirmação de direitos”, mas que agora “é necessário afirmar os deveres e intervir no espaço público, para não se ser um mero destinatário político sem participação”.

Entre intervenções, o público pôde assistir a uma atuação do Coro da Esquina, grupo dedicado à leitura em voz alta, que apresentou um texto no qual as diferentes fases da Revolução eram retratadas. Neste momento, houve espaço para a distribuição de cravos por alguns membros da audiência e para a interpretação do início da canção “Grândola Vila Morena” pelas crianças que pertencem ao coro.

José Manuel Pureza optou por iniciar o seu discurso com a narração daquilo que viveu a 25 de abril de 1974, que descreve como um “dia mágico”. Para o ex-deputado, aquele momento “virou a sociedade portuguesa do avesso” e transformou o “movimento de massas no ator principal”. Das dez conquistas, destaca que a universalidade de direitos, o direito ao trabalho e o fim da guerra colonial são as que enfrentam mais desafios na atualidade. O professor universitário reitera que vê a Revolução como “um processo de transformação” e que, 50 anos depois, se vive “um tempo de ressignificação democrática”.

Por fim, João Gouveia Monteiro explicou que, perante o aniversário do fim da Ditadura, a comunidade não “podia ficar indiferente” e, por isso, os autores mobilizaram-se, “à boa maneira coimbrã”, para sete meses de ciclo de tertúlias. Além dos debates acerca de dimensões como a cidadania e direitos individuais, saúde e envelhecimento, o coordenador científico achou necessário “rematar” com o tema “Utopias. A Liberdade. O Tempo” para “penetrar no espírito da Revolução”. Após agradecer a todos os envolvidos na criação do livro, o investigador esclareceu que as perguntas que compõem o título indicam o conteúdo da obra: “os sucessos e fracassos da evolução da cidadania e da democracia”. O autor reconhece que se vive “um tempo desafiante”, que dificulta a missão democrática, mas perceciona que “a utopia serve como um horizonte a seguir”. Tal como Maria de Belém Roseira, João Gouveia Monteira apela a que “todos façamos o que nos compete”, de forma a “manter o legado da Revolução e construir uma nação mais feliz”.

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