Ensino Superior

NEFLUC promove debate “A Academia e o 25 de Abril”

Mafalda Adão

Para investigador do CES, movimentos estudantis serviam como “ilhas de liberdade” no período ditatorial. Estudantes do sexo masculino tinham apenas três opções como seu destino: “fugir, exílio ou prestar serviço militar”, sublinha Alberto Martins. Por Mafalda Adão e Jéssica Soares

No dia 3 de abril, pelas 16h30, o Teatro Paulo Quintela da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) foi palco de uma homenagem aos 50 anos do 25 de abril de 1974. Esta sessão, intitulada “A Academia e o 25 de Abril”, contou com a presença da moderadora Clara Serrano e os oradores Miguel Cardina, investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC), Alberto Martins, advogado e político, e Rui Bebiano, historiador do CES.

Nesta iniciativa do Núcleo de Estudantes da FLUC da Associação Académica de Coimbra (NEFLUC/AAC), propôs-se a conhecer a realidade do antes e depois do 25 de abril de 1974. Assim, as transformações sentidas nos últimos 50 anos foram discutidas pelos oradores através das mudanças estudadas e vivenciadas por eles.

Após a moderadora fazer uma breve apresentação dos seus colegas de mesa, passou a palavra a Miguel Cardina. O investigador, mesmo não estando presencialmente, deixou o seu testemunho em formato digital. Na sua intervenção, ressaltou alguns argumentos orientadores e “enriquecedores” para o tema, como a devoção da democracia portuguesa para com as lutas de abril.

Os movimentos estudantis também foram realçados pelo investigador, construídos como “ilhas de liberdade”, devido ao seu carácter democrático. As crises estudantis trouxeram consigo também o panorama social, como explicou Miguel Cardina. Apontou como mudanças os “estilos musicais”, as “novas formas de estar e se relacionar”, o “vestuário”, e “novos ícones políticos” associados ao anti-racismo, ao comunismo, e às guerras de terceiro mundo.

Um outro destaque importante que o investigador mencionou ao nível social foi a entrada das mulheres na academia. Na década de 50, o sexo feminino constituiu “um terço de uma academia que nem chegava aos 4 mil estudantes”. Enquanto em 1970, numa comunidade estudantil que já passava dos 9 mil elementos, “as mulheres já eram mais do que os homens, apesar de não frequentarem os cursos de maior prestígio social”.

Numa última nota, Miguel Cardina sublinhou a repressão que se fazia sentir na época, mesmo depois da crise estudantil de 1969. Para sustentar esta informação, o investigador do CES referenciou uma tese de doutoramento sobre o movimento estudantil, em que consta que “entre 1956 e 1974, cerca de 13% dos presos políticos eram estudantes e em 1973, eles eram 43%”. Acrescentou ainda que “em 72 e 73, quase todas as associações estavam encerradas”, incluindo a Associação Académica de Coimbra (AAC), que havia fechado portas em janeiro de 1971. Tal como Rui Bebiano adicionou, na sua intervenção, a AAC voltou a abrir após a revolução.

Alberto Martins caracterizou Portugal dos anos 60 como um país “pobre, subdesenvolvido, desigual e analfabeto”. Na sua opinião, os problemas dos estudantes são “inseparáveis” dos problemas gerais do povo e do país e, por isso, destacou as lutas dos estudantes da UC como  “afluentes do rio da história que passou no 25 de abril”. O político sublinhou que durante a Guerra Colonial, os estudantes do sexo masculino tinham apenas três opções como seu destino: “fugir, exílio ou prestar serviço militar”.

Segundo Alberto Martins, 87% dos estudantes que faziam greve ou participavam em manifestações eram incorporados no serviço militar como castigo pelo seu “mau comportamento”. Já para Rui Bebiano é essencial estudar o papel e a importância da cultura, assim como os movimentos estudantis. O próprio revela que foi ativista entre 1970-73, mas acabou por ser preso numa manifestação e teve como punição lutar na Guerra do Ultramar durante dois anos.

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