Opinião

Concurso de Escrita “Faz-te Ouvir”

Publicação do texto vencedor do Concurso de Escrita “Faz-te Ouvir”, realizado em parceria com o Jornal Hermes do NEFLUC/AAC e o Jornal “O Despertar”. Mafalda Cardoso Moita conquistou o primeiro lugar.

Liberdade de opinião e os seus limites

Dia 27 de janeiro assinala-se, mais uma vez, o dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Quiçá não seja desapropriado escrever e relacionar, ainda que tristemente, esta data com a liberdade de opinião e os seus limites. Dos milhares que padeceram às garras do regime nazi, muitos se fizeram mártires de uma liberdade que só mais tarde se assumiu como fundamental.
Contudo, o conceito de liberdade, por mais simples e inato que nos soe, é, deveras, de uma complexidade tremenda. Desde logo porque não se exerce inocuamente, mas em interação com os outros. Depois, porque somos humanos, extremamente influenciados pelos contextos e sociedades. Por fim, porque está muito além da consciência individual.
Porém, não é meu desejo analisar filosófica e politicamente o conceito de liberdade de opinião. Todavia, com a devida consciência e homenagem por aqueles que morreram em nome deste direito, proponho uma reflexão que, convenhamos, é intemporal.
Honestamente, a liberdade de opinião é um bem tão valioso quanto frágil, que se defende exatamente pelo seu exercício. O que se pode revelar extremamente belo.
Pense-se em Picasso. Quando um oficial da Gestapo o interrogou pela autoria do quadro “Guernica”, a sua resposta foi, simplesmente, afirmar que o autor era o próprio oficial. Picasso não mentiu. Sabemo-lo. O artista só deu uma forma surrealista ao massacre que se assistiu em Espanha.
Ainda que limitada politicamente, o grande trunfo da liberdade de opinião fora sempre a sua aliança com arte, em qualquer das suas expressões. A opinião está lá, livremente enclausurada, defendendo-se a si própria, rasurando qualquer censura, enfraquecendo o inimigo.
Mas o que dizer sobre hoje. Sobre os jovens, em especial. Afinal, seria de esperar que vivessem na época mais livre da História. Porque ela própria nos deu conquistas que deveriam ter formado jovens Livres, mas conscientes. Livres, mas seguros da sua identidade. Livres, mas sem receios de admitir erros e corrigi-los. Livres, mas fortes. Lamentavelmente, não é o que presenciamos.
Tornam-se, para sua desgraça, o maior limite da sua própria liberdade. Confundem a liberdade de opinião com ausência de regras, com libertinagens e insensibilidades. Disfarçam-se para integrarem o grupo, simulam, mentem, negam e aceitam aquilo que nem sequer acreditam. Tudo isto, tantas vezes, atrás de um ecrã.
E a liberdade de opinião, essa que foi negada às vítimas do regime nazi, essa que foi pintada por Picasso, transforma-se num conceito adquirido, abstrato, estranho à vida real. E é, irremediavelmente, mais fácil falar e escrever sobre a liberdade de opinião do que aceitar que cada um é o seu próprio limite, intransponível, quando cede o seu carácter, desvaloriza a sua essência e rejeita aquilo em que acredita.
A liberdade é imperfeita, mas nunca houve e jamais haverá, salvação sem ela. Depende de cada um.

Mafalda Cardoso Moita

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