Ensino Superior

Academia reúne-se para inaugurar mural em homenagem à Crise Estudantil de ‘69

Raquel Lucas

Presidente da República agradece coragem de Alberto Martins em nome dos portugueses. Renato Daniel assume compromisso da DG/AAC em “renovar laços com democracia e liberdade para que nunca sejam esquecidos”. Por Bruna Fontaine e Jéssica Soares

A inauguração de um mural em homenagem a Alberto Martins, presidente da Direção-Geral da Associação Académica Coimbra (DG/AAC) em 1969, em plena crise estudantil, reuniu o próprio, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o atual presidente da DG/AAC, Renato Daniel, no dia 17 de abril. O vice-presidente da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), Francisco Veiga, e o reitor da Universidade de Coimbra (UC), Amílcar Falcão, também marcaram presença no evento. A cerimónia teve início no exterior da Casa das Caldeiras, pelas 14h15, junto à obra que “pretende eternizar a luta pela liberdade que se consolidou no momento em que Alberto Martins pediu a palavra em 1969”, acredita Renato Daniel.

A homenagem ao passado começou com a performance do grupo de fado Presença de Coimbra, seguindo-se a intervenção do presidente da DG/AAC. “O peso da história e da resistência” é o que Renato Daniel defende nas suas palavras. A cerimónia, iniciativa do órgão dirigente, é direcionada ao “nome maior de Coimbra e um dos maiores da história de Portugal”, ressalvou. Além da carga histórica inerente, o jovem sublinhou o compromisso em “renovar os laços com a democracia e a liberdade, para que nunca sejam esquecidos”. Acrescentou que “ a educação é a solução para acabar com os discursos populistas e fáceis”, admitindo ser importante a “inspiração e lembrança deste momento de coragem”.

Raquel Lucas

“Alberto Martins é uma figura marcante da academia”, destacou o vice-presidente da CMC, segundo interveniente. Francisco Veiga apontou a relevância do mural da autoria de C’Marie e Egrito para a “a materialização e simbologia duradoura” da Crise de ‘69 enquanto “marco de resistência democrática”. O autarca pautou o seu discurso na história ao relembrar os “meses de luta e indignação que seguiram o pedido da palavra”, a “mobilização da comunidade estudantil e das restantes camadas da sociedade” e ao reforçar a “gratidão por aqueles meses de contestação”. Apelando aos jovens, o vice-presidente da CMC declarou que a “liberdade não é um direito conquistado, mas adquirido”, algo que acredita que deve ser relembrado com homenagens como esta. 

A intervenção do munícipe acabou com um cidadão do público a pedir a palavra, acusando a participação e o discurso de Francisco Veiga de serem estratégias “para a campanha” que se avizinha com as eleições autárquicas de 2025, considerando a intervenção de Alberto Martins como “a única necessária”. Seguiu-se o discurso de Amílcar Falcão, que corroborou a perspetiva dos colegas de púlpito: “essa irreverência de Alberto Martins e dos estudantes foi o propulsor do 25 de abril”. Em nome da academia, o reitor promete que se vai continuar a relembrar o 17 de abril, “um dia que precisa de ser passado aos estudantes que não viveram naquele tempo”. Amílcar Falcão concluiu ao relembrar o choque geracional que se sente pela diferença de idades entre aqueles no poder e os jovens: “o diálogo é sempre importante”.

Raquel Lucas

Na passagem da palavra para o dirigente da DG/AAC de 1969, a responsável pelas apresentações, Helena Mariz, referiu que “50 anos depois, o ex-presidente tem, oficialmente, a palavra e o reconhecimento devido e merecido”. Depois de se afirmar honrado e emotivo com a cerimónia, agradecendo à “eterna AAC” e à atual Direção-Geral, Alberto Martins teceu algumas considerações: “Os dirigentes estudantis de hoje, ao comemorarem de modo tão expressivo as lutas de Coimbra de 1969, afirmam na força dos seus ideais humanistas e democráticos que não há futuro sem memória”.

Assim, o “eterno presidente”, como Renato Daniel o apelidou, compartilhou a sua lembrança de um dos momentos vividos enquanto ex-dirigente académico. “A 17 de abril de 1969, ao erguer-me sobre o murmúrio e a agitação da sala, afrontando os rostos e os símbolos da ditadura, num momento difícil e tenso, eu era mais do que eu, era a academia de Coimbra, uma geração a pedir a palavra por uma causa justa”, exclamou. Ao evocar o 25 de abril, Alberto Martins acredita que existe “o dever de resistir ao esquecimento de um Portugal que viveu uma das mais longas ditaduras da Europa, que reprimiu os mais ousados e lutadores, que empurrou para fora do país gerações em luta pela sobrevivência e lançou os portugueses numa guerra colonial fortíssima”.

Após a intervenção de Alberto Martins, ouviu-se no público a frase “Eu peço a palavra!”, em diferentes vozes. Após cumprimentar os restantes intervenientes do evento, o Presidente da República pediu para que se aproximasse quem quisesse falar. Joana Coelho, estudante da UC e membro do Coimbra pela Palestina, subiu ao palco para apelar a atenção para as questões de independência e apoio ao território. “Já morreram mais de 30 mil pessoas, é inaceitável, é necessário haver discussão sobre isto, está a acontecer um genocídio”, defendeu a estudante. Desta forma, Marcelo Rebelo de Sousa começou o seu discurso por abordar o tópico: “Portugal, desde sempre, defendeu, tal como as Nações Unidas, o direito da Palestina de ser um Estado independente”.

Raquel Lucas

O Presidente da República realçou que “quem vive em democracia não tem a noção do que era viver em ditadura”. Para o ilustrar, denotou a diferença entre os dois regimes: “há 55 anos houve um estudante que pediu a palavra e a ditadura virou-lhe as costas, hoje, em democracia, alguém pede a palavra e esta é-lhe imediatamente atribuída”. A fim de homenagear o ex-dirigente da DG/AAC, Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu, em nome de todos os portugueses, pela coragem que Alberto Martins teve a 17 de abril de 1969.

Em relação à importância da data, o Presidente da República alegou que aquele momento serviu como “semente que uniu Coimbra e o país e marcou o começo do fim do regime ditatorial”. Além do louvor, aproveitou para sublinhar que “não serve de nada só olhar para o passado, é preciso refazer a democracia todos os dias”. Manifestou, ainda, a sua crença: “Não há portugueses puros, não há nós e os outros e, por isso, não pode haver xenofobia ou ódios descontrolados, cada vez que não vamos mais longe, desfaz-se a democracia”.

Com o fim das intervenções, procedeu-se à inauguração em frente ao mural. “Eu pedi a palavra por uma questão de honra, pelos problemas da academia e da juventude”, revelou Alberto Martins. O “eterno presidente da DG/AAC” sublinhou que, na sua ação, “o impacto era evidente por estar a confrontar os chefes da ditadura”. Acrescentou: “Antes de pedir a palavra tive medo, mas fui obrigado a superá-lo. Mesmo assim, não sabia o que me podia acontecer, podiam-me bater, prender, expulsar, …, mas quando vi os estudantes a entrar na sala, a minha alma subiu”. Ao ser o rosto do que considera a “geração académica”, o ex-dirigente destacou o sentimento com que esse estatuto o preenche: “Naquele momento, voei de satisfação e estive à altura das minhas responsabilidades, tinham de escolher um rosto e eu era o presidente”.

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