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Representantes partidários à mesa sobre o futuro de Portugal na Europa

Jéssica Soares

Candidatos às eleições europeias refletem sobre memórias da troika em Portugal. Abstenção jovem e alargamento da UE são preocupações comuns. Por Joana Almeida e Jéssica Soares

No dia 13 de março, o auditório 2 do StudentHub foi palco de uma mesa-redonda no âmbito das eleições europeias de 2024. Organizado pelo Núcleo Associativo de Estudos Europeus de Coimbra, este evento contou com a colaboração do Jornal Universitário de Coimbra – A CABRA, na moderação, por parte de Clara Neto, e com a cobertura da Televisão da Associação Académica de Coimbra. Marcaram presença figuras políticas como David Ferreira da Silva, a representar o Partido Socialista (PS), Manuel Barata de Tovar pelo Partido Social Democrata (PSD), Manuel Rebanda pelo CDS-Partido Popular (CDS-PP), José Manuel Pureza em nome do Bloco de Esquerda (BE), Vladimiro Vale pelo Partido Comunista Português (PCP), Celso Monteiro pela Iniciativa Liberal (IL), Duarte Costa pelo Volt, e João Fontes da Costa pelo PAN: Pessoas-Animais-Natureza.

Ideias estruturantes para os planos eleitorais

Apesar da grande parte das figuras políticas terem afirmado que os seus partidos não têm ainda um plano redigido para as eleições europeias a realizar-se no dia 9 de junho de 2024, muitos já têm linhas orientadoras em que se vão debruçar. Para o BE, estas passam pela desvinculação do tratado orçamental, colocação do pleno emprego como objetivo central da política do banco central europeu, reforço da política de coesão, definição de ‘standards’ de proteção laboral e de proteção ambiental em escala europeia, recusa do pacto das migrações como um instrumento de exclusão dos imigrantes do espaço europeu e recusa da redinamização do espaço europeu através da militarização e de uma aposta em indústrias armamentistas.

Vladimiro Vale destacou a favorabilidade a uma “Europa de cooperação”, igual em direitos, progressos e paz, no entanto, afirmou que “o progresso de integração capitalista da UE não cumpre estes conceitos”. As diferenças entre países acabaram por ser mais favoráveis aos mais ricos, gerando mais desigualdade entre nações e entre classes, explica o representante do PCP. Assim, o partido quer ir ao encontro da “defesa intransigente dos direitos laborais, sociais e dos serviços públicos”, de forma a combater o “crescimento da extrema-direita, de nacionalismos, racismos e xenofobia”, que se observa no país e à escala europeia.

O PS acredita que se deve adotar uma preocupação com a autonomia estratégica do país, centrada na transição ambiental e na responsabilidade social. David Ferreira da Silva expôs, ainda, que a base para o futuro programa vai passar pelos direitos fundamentais e os direitos das mulheres. Para o CDS-PP, a luta contra a pobreza é o principal problema a combater ao nível europeu. Já o PSD destacou: a guerra na Ucrânia, a autonomia de Portugal em relação à União Europeia, a inteligência artificial e o clima, destacando a necessidade de uma transição energética. O PAN sublinhou também a necessidade de mudança climática, promovendo as energias renováveis, assim como o compromisso para com a justiça social e os direitos humanos.

A IL defende que na ameaça das forças de extrema-direita, a defesa dos direitos das mulheres deve ser prioridade. Também é um objetivo do partido retirar Portugal da “cauda da Europa”, bem como de criar um mercado de trabalho europeu. Para o Volt, o único partido que já tem um programa definido para as eleições europeias, deve-se “relançar a UE”. Para isso, é necessário enfrentar dinâmicas como o crescimento dos partidos eurocéticos. Quanto aos seus objetivos de atuação, Duarte Costa destacou a crise climática, a paz promovida por um exército europeu, apostas nas pequenas e médias empresas e a derrota ao populismo e à desinformação.

Em resposta à existência ou não do desinteresse da sociedade em relação às questões europeias, o BE manifestou que este não existia. Apontou ainda que o valor das propinas, as rendas de casas e a multiplicação das bolsas são exemplos de questões europeias e que são da preocupação dos estudantes. Esta foi uma opinião de convergência para os restantes partidos, que expuseram ter a mesma conceção. Já o representante do Volt considerou que o desinteresse não está relacionado com as questões europeias, mas sim com os debates feitos para essas eleições, não refletindo verdadeiramente o que são ou o que representam.

Impacto da troika na visão da UE

Quando questionado sobre o impacto que as memórias da troika têm nos portugueses, Manuel Barata de Tovar, em nome do PSD, afirmou que essa época “não é um obstáculo na relação dos portugueses com a UE”, pois “os portugueses não confundem o médico com o problema”. Pelo contrário, o PAN  defendeu que se instaurou uma “desconfiança institucional”, defendendo que a noção de que não havia uma solidariedade para com Portugal “colocou em causa a visão que os portugueses têm sobre as instituições europeias”. Da mesma forma, Celso Monteiro acredita que “as pessoas mais velhas têm a ideia de que a troika foi uma consequência da ação europeia e que trouxe grandes dificuldades ao povo português”. Acabou a intervenção referindo que o grande interesse que existe por parte dos jovens ajuda a que se desmitifique esta ideia de que “a UE é má”. Para a IL, a ajuda europeia é essencial, mas deve ser bem aplicada.

Para o PCP, “o período da troika é um período que tem que ser lembrado, até porque se o esquecermos, corremos o risco de o voltar a repetir”. Do mesmo modo, o representante do BE referiu que “existe uma memória desse tempo da troika, que foi um tempo de emigração em larga escala, de desemprego, e de precariedade laboral”. Reiterou, depois, que “ficou claro que o PSD e o CDS acabaram por governar indo além da troika”. Já David Ferreira da Silva defendeu que o facto de o PS “não ter batido o pé em relação à austeridade é uma coisa que o partido tem de resolver na sua história”.

Abstenção jovem

Sobre a problemática de levar os jovens às urnas, o PS defendeu que “as camadas mais jovens devem verificar quais são os partidos que defendem os seus problemas e irem atrás disso”. Já o CDS defendeu que se tem verificado em toda a Europa uma certa iliteracia política da juventude e uma mediatização das redes sociais.

O PSD referiu que se “a abstenção mantiver os níveis atuais e todos os jovens europeus participarem, estes podem escolher metade do parlamento europeu”. Finalizou dizendo que “para aumentar o interesse dos jovens, é preciso juntar à nossa ação aquilo que nós prometemos em palavras”.

Para o PAN, “os jovens são uma força fundamental na sua participação”. Sustentou que estes devem “transformar em ação cívica e política os movimentos que tanto lutam na rua”. Para João Fontes da Costa, o “problema de considerar que as instituições europeias estão muito longe leva a que haja uma desconsideração de que não faz sentido ir votar”.

Segundo a IL, “a criação de mais ações como debates e ações de campanha podem fazer os jovens ir às urnas”. Acrescentou que querem “dar a possibilidade a que os jovens falem, participem e sejam parte do processo”. De acordo com Duarte Costa, “os resultados de domingo mostram que os jovens querem renovação e mudança” e que “a elite política da UE não tem estado à altura das aspirações dos jovens”.

Alargamento da UE

José Manuel Pureza acredita que os alargamentos podem se traduzir num rebaixar da matéria demográfica, visto que o observado pelas últimas adesões foi o desrespeito pelos critérios de Copenhaga. Vladimiro Vale declarou que olham “com preocupação estas vias rápidas de adesão, e dos constrangimentos financeiros que traria”. O PS acredita que enquanto não forem resolvidas questões internas, difícil será alargar” e que “países como a Hungria e a Polónia não cumprem os critérios para entrar, visto que são governados pela direita”. Já o PSD recordou que uma nova integração na UE pode custar a Portugal alguns dos fundos disponibilizados, pelo que o país deve geri-los da melhor maneira, criando uma maior autonomia face à UE.

João Fontes da Costa constatou que “deixar entrar mais países não pode prejudicar os que já lá estão”, pelo que os interessados em aderir devem criar reformas estruturais de forma a cumprirem os critérios. A IL apresentou-se como totalmente a favor da entrada da Ucrânia e defendeu, como o PSD, que os fundos cedidos devem ser bem investidos. O Volt apresentou as medidas que acredita que a UE deve introduzir, tais como a reforma dos tratados, o reforço dos meios de combate à corrupção e os investimentos estratégicos. “A UE só será mais forte quanto mais for um bloco da prosperidade”, completou o representante do Volt.

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