Ensino Superior

O jornalismo “não pode ter patrões, nem ser cliente”

Guilherme Borges

Eurodeputado pelo PS e jornalista discutem liberdade de imprensa, notícias falsas e discurso de ódio. Intervenientes defendem financiamento transparente do jornalismo. Por Guilherme Borges

No dia 7 de março, pelas 18 horas, na Sala 17 de abril do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (UC), realizou-se uma mesa redonda acerca da liberdade de imprensa e de expressão. O debate contou com a intervenção de Joaquim Reis, mais conhecido como “Quim Reis”, jornalista da Antena 1, e de João Albuquerque, eurodeputado pelo Partido Socialista (PS).

Esta atividade foi organizada pela Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra e moderada por Clara Neto, em representação da estrutura. Foram feitas perguntas sobre Portugal ter caído no ‘ranking’ mundial da liberdade de imprensa e acerca da falta de segurança dos jornalistas. Além disso, os intervenientes foram questionados em relação aos possíveis limites impostos à liberdade de expressão, ao financiamento da profissão e no que toca ao jornalismo local.

Liberdade de Imprensa

Quim Reis abriu o debate ao argumentar sobre o porquê de o país ter sido rebaixado ao 9º lugar no ‘ranking’ de liberdade de imprensa dos Repórteres sem Fronteiras. O antigo academista relembrou o período da COVID-19 e a “narrativa vigente” da época, por si encarada como “insustentável”, mencionando as dificuldades sentidas pelos jornalistas na realização do seu trabalho. Nesse sentido, Quim Reis acredita que a liberdade de imprensa em Portugal caiu devido ao “politicamente correto”, já que as pessoas realizavam uma “autocensura” com receio das repercussões negativas de se oporem a esta narrativa.

João Albuquerque concordou com alguns pontos do antigo academista, apontando o facto de outros países da Europa também terem caído no ‘ranking’. O eurodeputado alegou que o principal motivo dessa queda se prende com a disseminação de notícias falsas. Porém, admitiu a dificuldade de combater a sua propagação e declarou que “dar o poder de controlo da informação aos vários Estados pode resultar em censura”.

Segurança dos jornalistas

João Albuquerque sublinhou a problemática dos “desertos jornalísticos”, zonas de Portugal sem lugares para comprar jornais, que comprometem a segurança financeira de quem trabalha com a imprensa. Ainda, o eurodeputado lembrou os casos de espionagem cometidos contra jornalistas gregos e debruçou-se sobre a forma como a União Europeia pode prevenir os ‘spywares’, vírus que permitem a infiltração informática.

O político apontou ainda para a inteligência artificial como uma propagadora de notícias falsas, dando ênfase à necessidade da sua regulamentação. Na mesma linha de ideias, Quim Reis criticou as pessoas que acreditam em ‘fake news’, por si encaradas como óbvias: “se alguém falasse que a torre da UC caiu, haveria pessoas a acreditar, sem pensar duas vezes”.

O jornalista é contra a intervenção do Estado na decisão do que é factual e, nesse sentido, defende a “responsabilização individual” dos cidadãos para não serem enganados. Além disso, declarou que, a partir do momento em que a redação de um jornal for “muito pacífica”, o jornalismo “vai estar em crise”. Assim, teme pelos novos profissionais, que podem ser alvos de “muita pressão” devido às dinâmicas das atuais redações.

Entraves à liberdade de expressão

Para o antigo academista, a liberdade de expressão apenas deve ter limites quando “puser em causa” os direitos dos cidadãos, garantidos a partir deste princípio. Quim Reis adicionou que o “discurso de ódio” é instrumentalizado como narrativa para benefício próprio, mencionando a sua utilização por parte da “extrema-esquerda e da extrema-direita”, que encara como iguais.

João Albuquerque considera que “as palavras, usadas num determinado contexto, levam a certas consequências”, entrando em oposição ao argumento de Quim Reis, que não acredita que estas sejam “suficientes” para resultar em algo como um crime de ódio. Para reforçar o seu argumento, o eurodeputado citou as “teorias da conspiração” do site ‘QAnon’ que, a seu ver, incentivam atos violentos como assassinatos.

Financiamento do jornalismo

João Albuquerque defendeu a necessidade de se pensar em novos modelos de orçamento e apontou a possibilidade de estes serem de cariz público. Na visão de Quim Reis, o apoio financeiro à profissão “deve ser transparente”, concluindo que o jornalismo “não pode ter patrões, nem ser cliente”.

Perto do final do debate, abriu-se espaço para perguntas da plateia. Tomás Barros, estudante de Jornalismo na UC, foi o único a interrogar os intervenientes. O jovem colocou uma questão acerca da “ausência de escrutínio” e das “dificuldades dos media nacionais em penetrarem” o jornalismo regional realizado na Região Autónoma da Madeira.

Em resposta, Quim Reis declarou não encontrar uma solução definida para o problema. No entanto, criticou as “relações de parentesco e amizade” entre os jornalistas da ilha, que possuem “muita proximidade”. Abordou, ainda, a falta de contacto entre a RTP e a RTP Madeira, assim como a RTP Açores. Para João Albuquerque, a solução é o financiamento da profissão para garantir “condições para um jornalismo independente”. O eurodeputado sublinhou, ainda, a necessidade de um “combate político” para derrubar a “autocracia” em relação aos órgãos de comunicação da Madeira.

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