Cidade

Jornalistas saem à rua em primeira greve geral após 40 anos

Liliana Martins

Profissionais reivindicam condições de trabalho dignas. Estudantes sentem incerteza e desmotivação face ao futuro da área. Por Guilherme Borges e Liliana Martins

No dia 14 de março, a Praça 8 de Maio foi palco de uma concentração organizada pelo Sindicato dos Jornalistas. O protesto aconteceu no contexto da primeira greve geral da classe em mais de 40 anos e foi de cariz nacional. Nesse sentido, em frente à Câmara Municipal de Coimbra juntaram-se, por volta das 9 horas, membros da associação sindical organizadora, do Sindicato dos Professores da Região Centro e integrantes dos diversos órgãos de comunicação regionais. Apesar da chuva que se fez sentir, o evento também ficou marcado pela adesão estudantil, que trouxe consigo cartazes reivindicativos.  

Um dos primeiros protestantes a intervir fez alusão aos 50 anos do 25 de Abril e alertou que a liberdade e a democracia “estão em causa”. Argumentou que, sem o jornalismo, “não há democracia” e que é preciso defender o exercício da profissão em condições dignas. O adepto da greve também apelou à luta e denúncia cívica “por todos” para garantir o direito e o dever de informar. Terminou a sua intervenção com uma palavra de ordem: “fascismo nunca mais, viva a liberdade!”, à qual os presentes responderam com aplausos.

Os jovens alunos de comunicação queixaram-se, sobretudo, da incerteza face à carreira, pelo que temem nunca chegar a exercer funções na área. “É desmotivante estarmos a estudar para uma profissão que não sabemos se vai ter futuro garantido”, lamentou Maria Guimarães, estudante da Licenciatura em Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Nesse sentido, a sua colega de curso, Ana Isabel Graça, revelou estar solidária com os profissionais, “que lutam por melhores condições de trabalho”.

Joana Carvalho é estudante de mestrado na UC e, ao tomar a palavra no protesto, partilhou com a multidão um texto que redigiu. A licenciada em Jornalismo e Comunicação apontou o risco em que a classe se encontra e confessou que encara o futuro da profissão como algo que “não é, de todo, auspicioso”. Em referência ao cinquentenário da Revolução dos Cravos, disse perceber como “a história da luta dos jornalistas não se encontra dissociada de outras lutas trabalhistas”. Quanto aos obstáculos que condicionam a prática jornalística, a estudante enumerou, entre outros, “os baixos salários, a precarização do trabalho e o aumento da hostilidade para com a classe por parte de forças policiais e políticas”.

A manifestação contou também com a presença de docentes de Jornalismo e Comunicação da FLUC. João Miranda sublinhou a importância da participação dos estudantes em iniciativas como esta: “os jovens precisam de se consciencializar e acompanhar os problemas da classe”. Assim, o professor destacou que é “indispensável” a preocupação com o futuro profissional e que os aspirantes a jornalistas devem perceber o seu “papel e função na sociedade”. Inês Amaral louvou a busca dos estudantes pela “noção do estado do jornalismo” e também pela demanda de atingir a “consciência de classe e do mercado de trabalho”. Além disso, a investigadora salientou a necessidade de se saber “quem manda nos média”, pois a falta de transparência “é um péssimo serviço para a democracia”.

Joaquim Reis, mais conhecido como “Quim Reis”, jornalista da Antena 1, também se juntou à manifestação. De acordo com o antigo academista, questões corporativas como salários, vencimentos e a progressão da carreira, ainda que preocupantes, “não são o mais importante” na greve dos trabalhadores. O jornalista acredita que as principais componentes ameaçadas são a definição de jornalismo e a qualidade da informação. “As pessoas não se apercebem, mas a riqueza do manancial informativo do qual sempre dispuseram está em causa e isso torna a opinião pública desinformada”, acrescentou.

Após a distribuição de panfletos e vários momentos de conversa entre todos, a manifestação chegou ao fim, perto das 11 horas, com o dispersar dos presentes. Além de Coimbra, também foram organizadas, no mesmo dia, concentrações em Lisboa, no Porto e em Ponta Delgada.

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