Cultura

Gerações cruzam-se a debater “Ruído das Mulheres de Março a Abril!”

Iris Jesus

Condição feminina durante Estado Novo marca intervenções de participantes. Debate objetiva “unir as mulheres (…) e apelar a que as pessoas estejam atentas e lutem por elas também”, conta Bárbara Canijo. Por Iris Jesus

“Ruído das Mulheres de Março a Abril!” intitula o debate promovido pela Associação Projeto Ruído, no âmbito da discussão do papel feminino na Revolução de 25 de abril de 1974. Realizado a 18 de março, pelas 18h30, a sessão inseriu-se “na esfera das comemorações do cinquentenário da Revolução dos Cravos”, revela a moderadora, Bárbara Canijo. O tema reuniu representantes do Movimento Democrático das Mulheres (MDM) e estudantes em argumentação, no ‘Student Hub’ da Universidade de Coimbra.

“Não há março sem abril”, começou a moderadora por dizer sobre o mote que intitula a iniciativa. Na sua visão, não seria possível celebrar o Dia Internacional da Mulher, a 8 de março, se a Revolução dos Cravos não se desse. Neste sentido, durante o seu discurso, aludiu à condição feminina durante o Estado Novo: “A mulher estava associada à tarefa doméstica e reprodutiva”. No entanto, realçou que, mesmo no contexto deste regime, “as mulheres resistiram”, fazendo referência a manifestações de “trabalhadoras” como a concentração de camponesas contra a fome de 1943.

Seguiu-se a intervenção de Francelina Cruz, militante do MDM, que acrescentou aspetos da vivência feminina antes do 25 de Abril. Revelou que a sua professora primária “queria ser juíza, no entanto, a profissão estava interdita às mulheres”. Referiu também que os cargos profissionais acessíveis à população feminina limitavam as suas decisões, como se verificava com mulheres enfermeiras, que “não podiam casar nem ter filhos”. Já no que diz respeito às relações entre homens e mulheres durante o Estado Novo, expôs ainda que “os homens tinham a liberdade de seguir o seu quotidiano como quisessem, no entanto, as mulheres tinham de lhes ser submissas”.

Graça Pedrosa, também partidária do MDM, contou que sentiu uma “alegria imensa no 25 de Abril” e descreve como foi a sua experiência, enquanto mulher, antes da Revolução: “eu sabia muito pouco sobre o mundo à minha volta”. No seu discurso, recordou que as mulheres que exibissem comportamentos reprovados pelo regime, podiam ser punidas pelos maridos e que aquelas que interrompessem a gravidez eram presas “entre 2 e 8 anos”.

O debate não terminou sem Bárbara Canijo recomendar o livro “Elas estiveram nas prisões do fascismo”, que conta a história de mulheres presas durante o Estado Novo. Graça Pedrosa lamenta que os tempos atuais estejam marcados pelo “individualismo” e que, por outro lado, “quando estas mulheres lutaram, estavam a fazê-lo por todas”. A moderadora partilha da mesma opinião, e acrescenta a importância de criar espaços de debate como este para “unir as mulheres, colocar as suas questões em cima da mesa e apelar a que as pessoas estejam atentas e lutem por elas também”.

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