Cultura

Entrevista – The Legendary Tigerman: “O mais importante é a comunhão à volta da música”

Leonor Ribeiro

Após alguns anos, Paulo Furtado volta a pisar palco do TAGV, a 8 de março. “Tocar em Casa é sempre um desafio extra”, expressa. Artista explora origem do seu alter ego, desafios ligados à performance e a ligação que possui com Coimbra. Por Raquel Lucas

Após estares inserido em grupos musicais como Tédio Boys e WrayGunn, deste-te a conhecer ao público em 2002 como The Legendary Tigerman. De onde surgiu este nome?

A maior parte desses projetos, na altura, tinham nomes muito compostos, também pelo seu minimalismo. Eu vi algum humor em criar um projeto que, de início, envolvesse o nome “The Legendary” (O Lendário). Eu fui buscar o “Tigerman” a uma canção de um artista que gosto muito, o Rufus Thomas, que também foi uma grande influência para mim. Chamava-se “Tiger Man (King of the Jungle)”, e daí surgiu a junção dos dois nomes.

Como é que fazes esta divisão entre o Paulo Furtado e o teu alter ego The Legendary Tigerman quando estás em palco?

Eu não faço, na realidade. Claro que há muita coisa que faço a partir do meu alter ego: a maneira como chego ao palco, o tipo de música que crio, etc. Há outras coisas que não são Tigerman, em que sinto que estou muito longe desse universo. No fundo, continuo a ser eu a conduzir esse alter ego, ou seja, conduzo-nos aos dois. É uma coisa muito maleável, relacionada com o coração e com o que esperar das pessoas. Em palco dá-se uma troca muito intensa, cheia de emoções e, neste processo, há sempre alguém atrás do Tigerman ou da banda. De alguma maneira, tenho de estar disponível e pronto para essa entrega.

Como é que foi passar de músico de grupo para o ‘one-man band’ ao longo da tua carreira e que principais diferenças encontras entre uma atuação em grupo e uma a solo?

Há uma coisa muito importante na música que não existe quando faço coisas a solo, que é a comunicação. É a influência de teres outra pessoa a tocar contigo, de teres consciência do que ela vai fazer. Há ali uma pequena (boa) tensão que não vem de uma certeza só. Por outro lado, há uma liberdade muito grande e interessante quando toco sozinho. Quando comecei o ‘one-man band’ tinha dois projetos em paralelo, entre eles os WrayGunn, onde tocava com uma série de pessoas, acho que isso era muito complementar. Voltar a tocar com a banda teve a ver um bocadinho com a menor atividade dos WrayGunn e por ter algumas saudades e vontade de tocar com pessoas. No fundo, foi um momento de superação para esse modelo em que tocava sozinho. Também teve a ver com a própria evolução da música.

Além da música, exploras fotografia, a realização e até mesmo o teatro. Como é que articulas o teu trabalho entre todas estas áreas?

Acho que há muitas coisas que têm os mesmos princípios e vêm dos mesmos lugares.

“Não acho que a música, uma banda sonora, uma peça de teatro ou o cinema sejam coisas que, na sua génese, sejam muito distintas”

Se calhar, a coisa mais diferente de tudo isto é fazer música. Todo o resto tem a ver com o meu olhar estético e artístico. As únicas coisas que estudei na vida foram pintura e escultura em Coimbra e isso, de certa forma, educou o meu olhar quando era muito jovem. A minha visão artística vem do que eu sinto, que é o que se faz em qualquer arte, portanto acho que essas áreas não estão assim tão longe umas das outras.

Quais são as tuas maiores inspirações?

A arte e a vida. Quanto mais tu vês cinema, teatro, quanto mais lês, ouves música…, mais inspirado ficas.

“Acho que, às vezes, a vida também se confunde com a arte”

Não sei, há tantas coisas. Em relação ao ‘rock and roll’ e à música no cinema, Jim James continua a ser uma referência enorme. Até a Billie Eilish pode ser, de muitas maneiras, extremamente inspiradora.

Tens preferência entre fazer álbuns e bandas sonoras?

Acho que isso vai mudando um bocadinho ao longo dos tempos, de acordo com o que me sinto mais confortável ou tenho vontade para fazer. Dá-me mais prazer criar bandas sonoras, também trazem ao serviço uma coisa maior. A música é um departamento no meio de outros departamentos e o objeto artístico final é um filme que depende muito de mim e se descentra um bocadinho de ti. Um álbum é uma coisa que traz uma certa sensação e que tem a ver contigo, não é? Que te vai buscar a energia, que envolve um esforço maior e emocional diferente.

Enquanto músico, quais os principais desafios com que te deparas e de que forma é que os tentas ultrapassar?

Acho que o maior desafio é estar sempre presente, independentemente das circunstâncias. Tu às vezes não estás com vontade de tocar, estás doente ou com problemas pessoais. Outras vezes alguém precisa de ti e tu tens de estar num palco. Com o passar dos anos fui aprendendo a levar com isso e a combater esse estado de espírito, a não despejá-lo no público. Fui aprendendo a levá-lo para o palco e a lidar com ele, tentando sempre que exista um momento de comunhão com a plateia.

“Mesmo quando as coisas não correm bem, tenho de tocar para toda a gente”   

Em que fase da tua carreira consideras estar?

Numa fase muito boa (risos).

Possuis uma ligação forte com Coimbra, dado que te mudaste para cá relativamente cedo na tua vida. Ainda assim, parte da tua carreira foi marcada por concertos do outro lado do mundo. Como é voltar a atuar nesta cidade, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV)?

É especial, é diferente. Tocar em Casa é sempre um desafio extra, por várias razões. Gosto muito do TAGV, já lá toquei muitas vezes. É um palco que eu respeito muito e um lugar onde vi muitas coisas que me educaram a nível musical, principalmente enquanto estava a crescer. É um espaço ao qual gosto muito de voltar, assim como Coimbra.

Quais são as tuas expectativas para o concerto em termos de performance e adesão?

Espero que seja possível criar um ambiente de união e intimidade com o público.

“Mais do que o concerto ao vivo, o mais importante é a comunhão à volta da música”

Por isso, vou tentar criar um momento de libertação e de fantasia em relação ao quotidiano. Em termos de adesão, espero muito público, claro (risos).

No dia da tua atuação celebra-se o Dia Internacional da Mulher. Vais, de alguma forma, fazer referência a esta data?

É incontornável que o faça, não é? De que maneira? Ainda não sei… mas vou.

Nota: À data da publicação do artigo, The Legendary Tigerman já tinha atuado no TAGV, a 8 de março. No entanto, a entrevista foi realizada antes do espetáculo, daí as questões terem sido colocadas no futuro. Aos visados, as nossas desculpas.

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