Crónicas

Dune: Parte Dois – Uma experiência sem precedentes

Por Fábio Torres

A tão aguardada sequela de Dune, simplesmente intitulado Dune: Parte Dois estreou em Portugal no passado dia 29 de fevereiro. Tal como no primeiro, a realização ficou ao encargo de Denis Villeneuve e os papéis principais foram protagonizados por Timothée Chalamet, Zendaya, Rebecca Ferguson e Austin Butler. A completar o ‘cast’ temos Josh Brolin, Dave Bautista, Stellan Skarsgard, Charlotte Rampling e Javier Bardem, que já vinham do primeiro filme. A estrear-se encontramos Florence Pugh, Léa Seydoux, Anya Taylor-Joy e Christopher Walken.

Em Dune: Parte Dois, Denis Villeneuve pegou nas bases que tinha construído no primeiro filme, lançado em 2021, e criou uma experiência ainda mais imersiva. Os eventos parecem maiores, as lutas mais decisivas e impactantes, e a profecia ainda mais real e perigosa. A inclusão de dois novos planetas não só aumentou a dimensão, como também a importância dos acontecimentos em Arrakis.

O filme pega precisamente no momento onde o último deixou o expectador, com Paul e Jessica a encontrarem os Fremen e a viajarem com eles por segurança. Contudo, ao contrário da Parte Um, estes percorrem viagens diferentes: Paul junta-se à resistência contra os Harkonnen e o Imperador e Jessica segue o caminho da religião, tornando-se a sua maior impulsionadora.

Ao longo das mais de duas horas e meia de filme, Villeneuve junta uma forte narrativa com bons momentos individuais de forma harmoniosa, pelo que cada atriz e ator consegue ter destaque, sem que nenhum fique. Ao mesmo tempo, a cinematografia e a sonoridade tornam este filme uma das melhores experiências de cinema dos últimos anos, rivalizada apenas por Avatar: O Caminho da Água e Oppenheimer.

Timothée Chalamet deu, talvez, a sua primeira grande performance de 2024 (e vai obter, bem possivelmente, uma nomeação a melhor ator do ano). Não só é o elemento que liga os acontecimentos do filme, como também dita o passo da narrativa. Através da sua atuação e disposição corporal, vemos a ascensão de Paul, um pequeno rapaz promissor, mas ainda frágil, ao guerreiro Muad´dib. Por sua vez, o guerreiro anti-imperialista torna-se em Lisan Al´Gaib, libertador do povo Fremen, há muito esperado por eles. O ator, em cada cena, entende perfeitamente a personagem e qual a melhor forma de transpor o sentimento. É ternurento nos momentos com Chani, e irreverente e destemido nos momentos sérios (especialmente no último terço do filme). Não só é fantástico, como eleva todos à sua volta.

Já Zendaya, que desta vez aparece mais do que cinco minutos, cimentou-se como uma das melhores atrizes da nova geração. De maneira subtil, mas poderosa, conseguiu desempenhar o papel de Chani e retratá-la como uma mulher forte e perspicaz, com princípios e capaz de demonstrar sentimentos. O romance entre as personagens principais é uma das melhores partes do filme e consegue mesmo estar ao mesmo nível dos principais ´plots´.

Além do personagem principal, a Parte Dois destacou também, vinda do primeiro filme, a Lady Jessica, protagonizada por Rebecca Ferguson. A sueca, que é conhecida pelos filmes de Missão: Impossível, foi intensa e impactante, sem que ter de levantar a mão. Juntamente com o Stilgar (Javier Bardem), ela é a personificação do poder que a profecia religiosa tem e do controlo que é feito pelas organizações na construção de narrativas e no aprisionamento moral.

Já Austin Butler, enquanto Feyd-Rautha Harkonnen, ainda que com pouco tempo de ecrã (apenas 23 min), faz um papel memorável enquanto vilão do filme. É talvez dos melhores vilões dos últimos anos. Consegue fazer com que cada segundo conte e cada maneirismo seu acrescenta camadas ao psicopata que encarna.

Como se não bastasse, também o elenco secundário trouxe o seu melhor nível. Ainda que de forma breve, Florence Pugh, Dave Bautista, Josh Brolin, Christopher Walken, Stellan Skarsgard ou Léa Seydoux conseguiram fazer das suas personagens indivíduos complexos. De louvar também Villeneuve, que pegou em todas estas e elevou-as a figuras importantes. Contudo, a presença de Anya Taylor-Joy (menos de 20 segundos) não se entende. Algumas destas atuações fantásticas (não só como no caso de Timothée Chalamet) podem vir a ter nomeações de melhores atores/atrizes nas respetivas categorias.

Por todos estes elogios e tantos outros possíveis, Dune: Parte Dois está na frente da corrida como o melhor filme de Ficção Científica já feito e, apesar de ser necessário ver o seu antecedente, a jornada até à chegada do Lisan Al´Gaib (cinco horas entre os dois filmes) vale mais do que a pena. Assim, não resta outra coisa a esta CABRA que não recomendar aos leitores a sua visualização, o quanto antes (em exibição na Casa do Cinema de Coimbra).

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