Cidade

Debate reúne candidatos pelo círculo eleitoral de Coimbra no ISCAC

Bruna Fontaine

Necessidade de reestruturação do sistema de transportes públicos é preocupação comum. Propostas para produção científica vão do reforço de apoios até à revogação do estatuto de bolseiro. Por Bruna Fontaine e Liliana Martins

O Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC) acolheu, no dia 6 de março, o debate entre representantes dos partidos com assento parlamentar candidatos às próximas eleições legislativas. Estiveram presentes os cabeças de lista pelo círculo eleitoral de Coimbra Miguel Cardina, do Bloco de Esquerda (BE), Fernando Teixeira, da Coligação Unitária Democrática (CDU), Clara Cruz Santos, do LIVRE e João Fontes da Costa, do Pessoas-Animais-Natureza (PAN). Pelo mesmo círculo também marcaram presença os representantes Maurício Marques, da Aliança Democrática (AD), e Celso Monteiro, da Iniciativa Liberal (IL).

Emigração jovem

Sob a moderação dos órgãos de comunicação da Associação Académica de Coimbra (AAC): Clara Neto pelo Jornal Universitário de Coimbra – A Cabra, Gonçalo Pina pela Rádio Universidade de Coimbra e Diogo Mateus pela Televisão da AAC, a discussão teve como primeiro tema o combate à emigração jovem. Neste âmbito, Celso Monteiro defendeu um crescimento empresarial baseado na redução de impostos, de modo a que as indústrias possam proporcionar aos estudantes recém formados melhores salários. “A IL quer que as empresas percebam que os jovens qualificados são uma mais-valia e não um encargo fiscal”, reiterou. À semelhança do representante da IL, João Fontes da Costa acredita que deve existir uma “fertilização cruzada” entre empresas e universidades. Ainda, o candidato pelo PAN defendeu a luta contra a crise na habitação e a promoção de uma “rede de saúde adequada”.

Fernando Teixeira começou por lamentar a ausência do Partido Socialista (PS) e do CHEGA na discussão, para quem, na sua ótica, “o debate de ideias tem importado muito pouco”. Sobre a problemática, o cabeça de lista apontou a precariedade das áreas da Ciência e da Investigação como um entrave à fixação dos jovens em Portugal. Já para Miguel Cardina, a redução dos índices de emigração passa por uma melhoria salarial, assente num “aumento do salário médio”, e por uma “aposta na contratação coletiva”.

Mobilidade e Transportes

Finalizado o primeiro tema, o debate seguiu para questões de mobilidade urbana em Coimbra. Neste campo, a necessidade de reorganização do sistema de transportes públicos foi ponto de concordância entre todos os presentes. João Fontes da Costa propôs a eliminação de “borlas fiscais” aplicadas a empresas poluentes, com vista a financiar passes sociais gratuitos. Miguel Cardina revelou que o Metro Mondego “não era a solução pretendida pelo BE”. Para o candidato, a resposta para a insuficiência da rede de transportes da cidade passa por uma “ferrovia mais ligeira”. Ainda assim, o cabeça de lista reconhece que “a região já esperou demasiado” e admite que a operacionalização desse sistema é “urgente”.

Clara Cruz Santos acredita existir uma “falta de comunicação entre os órgãos autárquicos e a população”. Assim como os representantes anteriores, defendeu o desenvolvimento da ferrovia do distrito, assente na sustentabilidade “ecológica e económica”. Fernando Teixeira não discordou das preocupações dos seus colegas, mas refletiu sobre o desenvolvimento do IP3 e do IC6, ao qual o PS e o Partido Social Democrata (PSD) se opuseram, o que demonstra “uma falta de honestidade democrática”. A estas acusações, Maurício Marques respondeu: “defendemos a conclusão do IC6, mas recusamos votar ao lado de um partido que defendeu a União Soviética”. A IL acrescentou a necessidade de haver uma maior disponibilidade dos transportes públicos para “conseguir tirar os carros das cidades”.

Investigação e produção científica

Após a discussão sobre a mobilidade em Coimbra, o debate retomou o rumo do Ensino Superior (ES) e investigação científica. Os representantes dos vários partidos foram confrontados com a questão da precariedade nestes setores e a problemática dos bolseiros de produção científica. João Fontes da Costa foi o primeiro a desenvolver o assunto, destacando a “fraca aposta na carreira de investigação, que se traduz em vidas que estão em espera há demasiado tempo”.

Miguel Cardina reafirmou esse “subfinanciamento crónico das universidades e do trabalho científico”. Sublinhou também a sua preocupação com o “hábito da bolsa” e a dependência do financiamento da investigação na realização constante de projetos, características que “prejudicam os investigadores”. Pela CDU, Fernando Teixeira marca estas problemáticas, mas acrescenta a necessidade de, “primeiro, se desenvolver o país para desenvolver a ciência”. Destaca o PS e o PSD como culpados pelos cortes económicos ao ES e garante que é preciso revogar o estatuto de bolseiro. “O Estado não precisa de apoiar os bolseiros, mas sim de dar-lhes contratos de trabalho”, concluiu.

A busca por “um apoio mais previsível, ágil e menos burocrático” é o destaque de Celso Monteiro para alterar a situação do setor investigativo: “nós não somos contra o Estado, nós queremos é que ele funcione bem”. Na mesma linha, o representante da AD preconizou o aumento do financiamento da investigação com uma “maior previsibilidade das bolsas”, apostando no desenvolvimento autónomo das próprias universidades. Maurício Marques exalta que “é importante que os bolseiros não estejam à mercê da interrupção da bolsa enquanto ainda estão a desenvolver o seu trabalho”.

Pelo Livre, Clara Cruz Santos trouxe ao debate os “23% dos portugueses com algum tipo de doença mental”, e sublinhou o aumento do número de ‘burnouts’: “a vida no ES, neste momento, não é saudável”. A cabeça de lista vê as “expectativas desleais” e o “modelo de financiamento que impossibilita uma perspetiva de futuro para os investigadores” como as grandes lacunas deste setor. Acrescenta que existe uma visão da ciência voltada para o lucro, “um paradigma economicista com um reconhecimento atribuído de maneira injusta”.

Apelo ao voto

O momento final do debate concretizou o apelo ao voto dos diversos partidos. A CDU aproveitou para referir que “não falta dinheiro em Portugal, o que falta é a sua distribuição”. Clara Cruz Santos mostrou a sua preocupação com a falta de discussão sobre sustentabilidade e clarificou que o Livre é uma alternativa “baseada em direitos humanos, não apenas sociais”. O BE também se edificou pela defesa do clima, a crise de habitação e pela causa feminista. Miguel Cardina deu conta de um “ataque a duas colegas do partido que pintavam um moral para o Dia da Mulher”, reforçando o seu repúdio.

Maurício Marques tentou cativar ao voto na AD “por um Portugal mais próspero para os mais jovens, mas também para os idosos e pensionistas”. O representante declarou também que o PSD trouxe a Portugal “as melhores pessoas que existem”. Pela IL, Celso Monteiro desafiou aqueles que o escutavam a “atrever-se a ser mais, a crescer”. Apelou ao “fracasso da maioria absoluta” e realçou que “está na hora de Portugal deixar de ser um país de baixos salários e passar a ser de rendimentos médios”. Por fim, João Fontes da Costa chamou a atenção para um voto com consciência, exaltando que “as causas defendidas pelo PAN não são causas do partido, mas sim de todas as pessoas, dos animais e do ambiente”.

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