Opinião

Cartas à Diretora

Xora Diretora,

Andaremos desatentos?

Quem está atento às praxes, rituais e imposições, nos grupos académicos?

Tradições? Beber obrigado, até cair para o lado?

E se não gosta, nem quer beber?

Aprende, não tem querer. Ou sai.

Nem é desistir, tem de sair, pois as regras ditam que tem de beber.

Que ritual social é este que impõe o álcool como convidado?

Se não bebes és tu o infiltrado. O estranho.

És homem, não bebes? Faz-te macho e bebe logo uns quantos de seguida. Penalty, sem qualquer árbitro neste jogo. Mas levas vermelho se não te pões a beber. 

És mulher, não bebes? Senhora que é forte, bota-abaixo num instante e ainda arrota se for relevante. 

Finos de graça, quem cai em desgraça? Porta finos, o novo companheiro destes tempos. Tempos de grupos que se juntam com um denominador comum, a música. Não! Nem todos. A música agora é outra. Juntar-se para beber até cair. Humilhar projetos e caloiros que o serão durante anos, que isto de passar a tunante não é assim num instante. Dura mais que uma vida, por isso, abandonar é, muitas vezes, o sabor acre de por ali passar. 

Sentiram-lhe o gosto por semanas, meses ou até anos, mas o gosto doce de cantar, tocar, conviver, viajar, amargurou na boca. O gregório, o burro de carga, o ridículo e o sem limites azedaram o caminho. Muitos saíram de mansinho. E se saísse toda a caloirada, farta de ser praxada?

Praxe? Carregar instrumentos, servir à mesa, comer no final. Poderá dizer-se, nada de mal. E de bem? Não responde ninguém. Ninguém está acima de ninguém e a palavra praxe é para integrar, não para desconsiderar.

Quem está atento?

Uma praxe que rebaixa, atormenta e já ninguém aguenta. Que bebam, os senhores e as senhoras, doutores, muitos de seguida e vomitem a vossa vida. Vida que ganha o quê em chegar a um limite de degradação e vazio, em que tudo se resume a beber um fino? E outro. E outro. E outro. E outro. E outro. E outro.

Que este vómito de palavras seja certeiro, limpem-se dessa presunção de quem bebe até cair será gente. Gente não é certamente e a vida não deve ser assim. Ser tuno é ter brio na voz, cumplicidade no ser. Ter a música como elo e brindar. Mas beber o que se quer, a quantidade que se quiser e parar se me apetecer. Apetece-me questionar onde está a liberdade nestes grupos?

Onde começa? Onde termina? Infelizmente, nalguns grupos, tem ficado à porta.

Derrubem-se portas, porque eu não bebo!

Quem está atento?

Parar. Mudar. Antes que não se vá a tempo.

Andaremos desatentos?

Margarida Tiago

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