Cultura

Um olhar pela vida daqueles que lutaram pela liberdade

Bruna Fontaine

Exposição no Convento São Francisco é parte do programa de celebrações do 25 de abril.  Fotografias querem “mostrar que estas pessoas tinham um quotidiano, vida, expectativas e rotinas”. Por Bruna Fontaine

A exposição Revoluções- Guiné-Bissau, Angola e Portugal (1969-1974), preenche a Galeria Pedro Olayo (filho) no Convento São Francisco com fotografias de Uliano Lucas, fotojornalista italiano. O conjunto da obra conta com 56 peças inéditas que acompanham as sociedades dos três países num período de revolução e libertação no desenrolar da guerra colonial. O trabalho vai contar com uma visita guiada dia 25 deste mês e vai estar disponível ao público até dia 17 de março.

No Convento São Francisco é exposta apenas uma parte do trabalho de Uliano Lucas em parceria com Bruno Crimi. Este surge “à época com todo o contexto italiano, político, social e cultural em que se inserem com o interesse muito particular pelos movimentos de libertação dos países colonizados”, revela uma das responsáveis pela exposição. “É um trabalho de denúncia enquanto jornalistas junto de órgãos de comunicação internacionais para dar visibilidade a estas lutas”, acrescenta sobre a motivação das fotografias que ilustram a vida por trás dos movimentos independentistas.

A amostra do trabalho do fotojornalista é uma seleção de fotografias de três reportagens distintas que se reúnem no tema da Revolução. A representante do Convento São Francisco esclarece que “um primeiro núcleo é dedicado a uma viagem que teve a duração de cerca de dois meses, à Guiné-Bissau, em que os jornalistas viajam a convite de Amílcar Cabral, tendo um contacto privilegiado com as zonas libertadas”. Também segundo esta voz da instituição, as fotografias das duas primeiras seleções procuram mostrar a capacidade de organização das áreas que já tinham expulsado o exército português.

Um dos destaques está na presença “marcante de mulheres, que são por norma excluídas das ilustrações em tempos de guerra”, característica que se exemplifica em diversas fotografias de guerrilheiras femininas, mães e crianças. A segunda leva de imagens segue a tentativa de “provar também perante a comunidade internacional, que, caso esses países tivessem a sua independência, teriam a capacidade para instalar as suas próprias instituições democráticas, sem necessidade de dependência política ou económica”, sublinha.

A reportagem que garante as imagens de Angola são produto de uma viagem mais curta. “Aquilo que Uliano Lucas procura é uma identificação entre quem vê as imagens com essas pessoas”, destaca a representante. A característica de solidificar uma relação de empatia passa por todo o trabalho, “mostrar que estas pessoas tinham um quotidiano, vida, expectativas e rotinas”, reforça sobre um contexto do passado que se assemelha à atualidade nestes momentos captados. Exalta neste subconjunto a fotografia de um médico que ensina educação sexual às mulheres: “Estamos a falar de 1972, quando em Portugal, em 2024 ainda há quem pense que é algo que não se deve fazer”.

A terceira parte da exposição mergulha na perspetiva portuguesa. A representante do Convento São Francisco contextualiza: “Uliano Lucas entra clandestinamente em Portugal em várias ocasiões e faz uma viagem pelo país onde recolhe várias imagens”. São visíveis fotografias de Coimbra, onde realça a fotografia de jovens estudantes que “deixam o fotógrafo intrigado face à sua postura leve mesmo sabendo aquilo que esperavam passado pouco tempo é serem mobilizados para uma guerra”. Marca também o desgosto do fotojornalista pelo dia a dia de pobreza que eternizou “numa altura em que Portugal gastava tanto na guerra”.

O caminho visual que percorre as revoluções termina com imagens dias após a revolução de 1974. “Nos primeiros dias a seguir ao 25 de abril, Uliano Lucas quis mostrar as pessoas que celebravam nas ruas, a liberdade e as suas expectativas”, explica a porta-voz. As fotografias exemplificam uma série de camadas dentro da libertação do povo português, “camadas de informação interessantes exploradas no trabalho deste fotojornalista”. Além de terem sido publicadas em revistas e jornais, as imagens foram compiladas em livro.

As memórias perpetuadas por Uliano Lucas são expostas pela primeira vez em Coimbra às portas dos 50 anos da Revolução dos Cravos. “Para o Convento São Francisco, esta exposição faz parte de um programa de celebração”, afirma a responsável. A obra do fotojornalista segue uma exposição sobre os movimentos estudantis e o seu contributo na oposição à ditadura, que abriu as comemorações. Para a voz da instituição, tanto “os movimentos revolucionários das colónias como a rebeldia desses jovens são lutas de pessoas que se identificavam”.

A exposição assim como a visita guiada do próximo domingo têm entrada gratuita. A visita aproxima o público “da luta pela democracia em Portugal que é também a luta feita pelos movimentos de libertação africanos”, afirma a representante da instituição.

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