Cultura

Filósofo brasileiro passa pelo CFS numa digressão em busca de respostas

Lucas Silva

Palestra com grandes incógnitas da filosofia apresentada na digressão do filósofo Leandro Karnal, em Coimbra. Em resposta às questões levantadas, Leandro Karnal sugere um posicionamento por parte do público: “seguir em frente”. Por Lucas Silva

O espetáculo “Prazer, Karnal”, de Leandro Karnal, filósofo e membro da Academia Paulista de Letras, foi recebido pelo grande auditório do Convento de São Francisco na noite de 25 de janeiro. Em entrevista ao Jornal A CABRA, o filósofo assinala: “gostaria de falar com o grande público, que não é especialista em filosofia, que tem angústias similares aquelas que, na memória de Platão, Sócrates fazia aos convidados do Banquete”. 

A digressão em Portugal começou no dia 23 de janeiro, no distrito do Porto, e terminou no Coliseu de Lisboa, a 28 de janeiro. Para Leandro Karnal, visitar Coimbra “tem sido uma experiência agradável”. Acrescenta ainda que a cidade “para um historiador é quase uma Disney”.

Com o humor sempre presente, o palestrante expõe o público a temas densos como a contingência, a vaidade, a solidão e a existência humana. Usa Michel de Montage, Arthur Schopenhauer, Albert Camus, Sócrates, Zygmunt Bauman, entre outros filósofos, como referências para o amparar nas suas reflexões. 

Ao contrário de uma palestra habitual, na qual o palestrante expõe as ideias que deseja desenvolver, Leandro Karnal desce do palco para questionar o público: “Quem é você?”. A primeira pessoa que se arriscou a responder disse que a sua identidade estava no seu nome: “Sara”. Esta resposta levou Leandro Kandal, em tom de brincadeira, a colocar em causa se ela sempre foi identificada dessa forma, se ainda na forma de gâmeta ela era reconhecida como “gâmeta Sara”.

Leandro Karnal considera que o humor, o paradoxo e o teatro são fundamentais para impedir “o maior inimigo da reflexão” dos jovens: a monotonia.  Nesse sentido, o filósofo usa recursos cénicos no começo da sua apresentação ao apresentar-se deitado numa mesa com rosas e tecido, como se estivesse a ser velado. Deste modo, introduz o primeiro tema do espetáculo, a morte. 

Para aprofundar a discussão sobre este tema, o professor cita o ensaio do filósofo francês, Michel de Montaigne, intitulado “Que filosofar é aprender a morrer”, onde aborda a ideia de que a eliminação do medo da morte é um pressuposto fundamental para a condução da vida. Ainda no mesmo contexto, Leandro Karnal faz referência a Bronnie Ware, enfermeira australiana, no âmbito do trabalho desenvolvido na obra “Antes de partir: os cinco principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer”. De acordo com a autora, o  quarto maior arrependimento dos pacientes que conheceu foi o de não manter o contacto com os amigos, ou seja, não gastar esforços para cultivar certas amizades que acreditavam que mereciam tais esforços. 

O tema da solidão não é desconhecido do palestrante, este já foi tratado pelo professor em 2018, em “O Dilema do Porco Espinho: Como Encarar a Solidão”. No livro, utiliza a metáfora de Arthur Schopenhauer, que diz que as nossas relações se assemelham a um porco espinho. “O frio do inverno (ou da solidão) nos castiga. Para buscar o calor do corpo alheio ficamos próximos dos outros. Efeito inevitável do movimento: os espinhos nos perfuram e causam dor (e nós a eles)”, explica na obra. 

Outro tema explorado foi o da contingência, sobre as incertezas que possuímos quanto ao futuro. Quando questionado sobre como essa questão se aplica aos jovens, o professor diz que a preocupação dos mais novos difere porque se sentem insatisfeitos com a segurança de um futuro dado. Leandro Karnal cita o exemplo de tendências como a “The Great Resignation” dos Estados Unidos, que consiste num abandono voluntário em massa dos colaboradores, para mostrar como existe uma certa recusa por parte da juventude em aceitar modelos estruturais. 

O filósofo reconhece ainda uma tendência saudosista errada que se tem propagado pela sociedade, de achar que se vive o pior período de todos. “Em cinquenta anos a geração da primeira metade do século XX teve experiências muito mais próximas de um fim de mundo do que nós estamos vivendo hoje”, declara. 

Prestes a concluir a apresentação, que teve como principal objetivo estimular a reflexão de aspectos essenciais da vida comum, Leandro Karnal sugere um posicionamento por parte do público: “seguir em frente”.  Apesar disso, o professor não nega que existem problemas e obstáculos nos dias que correm, mas termina com uma mensagem esperançosa: “cada época tem os seus desafios, a única coisa que nos pode animar é seguir em frente, porque seguindo em frente vamos criando perspectiva”.

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