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Fernando Teixeira pela CDU: (Sobre o orçamento para o ES) “Não falta dinheiro em Portugal, é preciso ir buscá-lo”

Clara Neto

Cabeça de lista da CDU desmistifica programa eleitoral do PCP em entrevista com o Jornal A CABRA. Entre questões sobre Ensino Superior, Economia e Transportes, o candidato esclarece como quer representar Coimbra na Assembleia da República. Por Bruna Fontaine e Clara Neto

ENSINO SUPERIOR

O programa eleitoral do PCP propõe uma nova lei de bases do financiamento para combater, passo a citar, “o estrangulamento financeiro do Ensino Superior por parte do governo PS das Instituições do Ensino Superior (IES)”. Como é que esta lei funcionaria?

É preciso perceber como é que o ES se financia e sabemos que, parte desse financiamento e aquele que é atribuído às várias instituições, vem das propinas. Isso é errado. As propinas, em primeiro lugar, não devem existir, logo, não podem ser o modelo de financiamento do ES. Nem as propinas, nem as taxas e emolumentos. Portanto, essa nova lei de bases terá de passar, primeiramente, sempre pelo reforço do investimento. Em segundo lugar, o orçamento do ES tem de ser financiado pelo orçamento geral do Estado. É aí que tem de encontrar as garantias, sem prejuízo, depois de outras fontes de financiamento que se possam encontrar. Aquele que tem de dar a garantia do ES público e gratuito é o Orçamento de Estado.

No seguimento disso, fala de eliminar o pagamento das propinas, as taxas e emolumentos para todos os graus académicos. E também em reforçar a Ação Social escolar, através do “aumento do valor das bolsas de estudo e do número de estudantes elegíveis, do reforço do complemento de alojamento da construção, renovação, adaptação das residências públicas e cantinas”. De que modo é que seriam aplicadas e qual seria o suporte financeiro para estas medidas?

É uma questão de opções políticas. Se nós queremos um ensino gratuito, democrático, com qualidade e para todos, há opções que têm de ser feitas, mas que não têm sido. Se há milhares de milhões de euros que acabam todos os anos como benefícios fiscais às grandes multinacionais, nós achamos que esse dinheiro seria mais bem aplicado nos serviços essenciais do Estado e nos serviços públicos, nomeadamente no ES.

O financiamento do ES parte daquela questão das opções políticas. Não há falta de dinheiro em Portugal, há uma má distribuição desse dinheiro. Nós temos verificado, ao longo das últimas décadas, o aumento da produtividade, mas não a par com o crescimento dos salários. Não há uma ligação entre os dois. Portanto, isso é um conjunto de falácias para quem não quer aplicar as medidas.

Nós tivemos a questão, por exemplo, com a qual a CDU se opôs, da passagem da Universidade de Coimbra a uma fundação pública de direito privado. Os estudantes opuseram-se, e bem, e contaram também com a CDU. Essa era, da mesma forma, uma questão de opção. Na altura, o Partido Socialista tinha a opção de transformar as universidades num modelo mais empresarial. Temos o exemplo do ISCAC, que é uma Business School. Em Lisboa também há algumas faculdades já com essas denominações. Isso contraria aquilo que é a nossa visão do ES.

Muitos acreditam que os exames nacionais, como ferramenta de ingresso ao Ensino Superior, garantem um equilíbrio entre os alunos do ensino público e os do privado. Como responde a isto, visto que o programa do PCP sugere o fim dos exames nacionais?

O que os exames nacionais garantem é a discriminação entre aqueles que têm condições para estudar e aqueles que não têm. A realidade é aquela em que nós vivemos, não é aquela em que gostaríamos de viver. As condições objetivas e reais de sucesso do filho de uma família pobre não são as mesmas do filho de uma família rica. A família rica pode colocar o filho em explicações ou em ATL (Centro de Atividades de Tempos Livres). Todas essas circunstâncias a que uma família pobre ainda hoje não consegue aceder. Portanto, tem de ser a escola pública a garantir, em primeiro lugar, as condições de aprendizagem e do sucesso no ensino.

Há aqui duas ordens de razão essenciais. Uma, a questão da discriminação, porque discrimina entre pobres e ricos. Outra, condensar aquilo que é uma aprendizagem de anos em 150 minutos não parece que seja um bom método, nem de seleção, nem de avaliação. A nossa posição é que os exames nacionais são para acabar. Eles constituem uma barreira ao acesso ao Ensino Superior, o que os torna numa injustiça. Nós achamos isso inadmissível.

Que alternativas o PCP propõe?

Há muitas formas de avaliar. O reforço da avaliação contínua é a alternativa aos exames nacionais. Nós não descredibilizamos a avaliação feita pelas escolas e pelos professores ao longo de anos. Acho que essa é uma boa alternativa, a avaliação não só em testes, em frequências, mas com os mais variados instrumentos de aprendizagem que, neste momento, temos ao dispor. Temos de utilizar essas ferramentas para que a aprendizagem tenha resultados concretos.

Para reforçar a avaliação contínua, é preciso reforçar o número de professores, o número de assistentes operacionais nas escolas, e as condições de trabalho destas classes para que mais pessoas desejem exercer estas funções. Acho que a CDU considera que o caminho é por aí.

Partindo dessa avaliação contínua, não sente que isso também seria mais uma forma de sustentar as desigualdades entre os alunos que, por exemplo, têm acesso a explicações e outros que não têm?

Não, é precisamente uma forma de atenuar essas condições. A avaliação contínua pode ser muita coisa, pode ser a participação, por exemplo. Claro que a injustiça e diferença entre alunos não se resolve só na escola, ela tem de ser resolvida ajudando as condições de trabalho dos seus pais, as condições de vida, de habitação. Tudo isso são questões que, para existir aqui uma igualdade entre pessoas, têm de estar resolvidas e sabemos que não estão. Digamos que todas estas áreas estão interligadas e temos de lhes dar resposta.

Porque é que o PCP acha que a revogação do regime fundacional e a revisão do Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) permitem a consagração de uma “verdadeira participação e gestão democráticas” das IES?

Isso está ligado com o Processo de Bolonha. Começou por aí. Aliás, o sítio que lhe dá o nome já não aplica o Bolonha há uma larga camada de anos. A nossa visão sobre o ES não se limita ao que se aprende somente nas aulas, é preciso valorizar toda a experiência académica. Olhem para o que se faz aqui na Secção de Jornalismo, nas secções da AAC, e por esse país fora. O RJIES e Bolonha vieram com o esquema de estudos e de horários que, aplicados, retiraram tempo aos estudantes para viver a sua vida, para se organizarem, para terem e dinamizarem associações. Sabemos as dificuldades, o que as secções atravessam, seja em termos de financiamento ou de participação. Isto também é uma outra questão, a competitividade no ES e, depois, as consequências no mercado de trabalho, que afastam os estudantes da vida associativa.

É o tempo dos estudantes para poderem fazer outras coisas que também os formam enquanto pessoas e cidadãos. É, muitas vezes, dentro das faculdades que os jovens criam consciência política, cívica, associativa. E se não tiverem tempo para isso? Então, digamos que a formação sai coxa e, mais uma vez, não combina com a nossa visão para o ES.

Sendo que reconhece as dificuldades das estruturas da AAC, em específico, e sendo representante da CDU por Coimbra, de que forma é que acha que o partido poderia apoiá-las?

Mais uma vez, através do orçamento geral do Estado, do financiamento das associações académicas. É preciso reforçar o investimento das associações académicas para que possam investir. É preciso, por exemplo, renovar este edifício e essas obras estão a demorar muito tempo a arrancar. Sabemos que é um edifício grande e antigo, com algumas exigências arquitetónicas, para poder ser efetuada a sua remodelação, mas isso não são desculpas, isso tem de ser feito.

O financiamento partiria de onde, para esta renovação?

O financiamento tem de partir do Estado. É preciso reforçar o orçamento da Universidade de Coimbra (UC), o orçamento da AAC. Investir, outro exemplo, no desporto académico, que é o parente pobre do desporto. Em Portugal, em primeiro lugar, o desporto é o futebol, mas não é o futebol todo. É o futebol da primeira liga. Em segundo lugar, é preciso que as secções possam ter meios para desenvolver o seu trabalho e isto relaciona-se com a nossa visão sobre o associativismo. Neste caso, falamos do associativismo académico, mas é uma visão para o seu geral, porque em muitas localidades e concelhos são as coletividades que dinamizam as terras. São poucos os jovens que ainda vão tendo e dinamizando o desporto e a cultura. Mais uma vez, esta é a nossa visão e poderão acusar-nos que queremos que o Estado pague tudo. O Estado não paga tudo porque isto é um investimento. Aumentar o orçamento para o ES e para as associações dos estudantes não é uma despesa, é um investimento no futuro do país. É um investimento na formação de melhores quadros de pessoas, mais completa e reforçada. Não falta dinheiro em Portugal, mas é preciso ir buscá-lo.

É, através dessa máxima, que o PCP visa cumprir também a valorização das carreiras no Ensino Superior e garantir o direito à promoção e à progressão que apresenta no programa?

Sim, e faço aqui um paralelismo com a justiça. Não são só os professores do ensino básico e secundário que têm dificuldades, como não são só os oficiais de justiça que têm dificuldades. Um procurador ou um juiz, agora, também não têm grandes condições de exercer a sua profissão em Lisboa ou no Porto. O salário não lhe dará essas condições, então há uma precariedade. Não é tão visível, mas ela é patente no ensino do ES, passo a redundância. Existe precariedade. Os contratos de associação, o caminho, por exemplo, na faculdade de Direito, são: primeiro és convidado, depois és assistente. A questão da endogamia dentro da universidade, em particular de Coimbra, também representa aqui um aspeto que consideramos que é preciso combater.

Como é que combateria a endogamia?

É preciso tornar a docência universitária mais atrativa para que mais pessoas queiram ensinar nas universidades portuguesas. Isto pode começar logo a partir do momento em que tiram os doutoramentos. Professores são verdadeiros trabalhadores das instituições, mas não recebem enquanto tal. Isso tem de terminar, porque essa é a grande precariedade do setor. Falando agora no investimento na ciência e na investigação. É algo que tem sido atrasado nas últimas décadas, aliás, tem-se fechado laboratórios, têm-se fechado inúmeros institutos, e tem-se visto a ciência como um apêndice do ES. E não pode ser. Tem de ser visto como o setor dinâmico que ele é. Precisa de investimento e de ter direito a um contrato de trabalho. Ajudaria muito a que alguns dos mais qualificados aqui quisessem ficar e não tivessem de ir para o estrangeiro. E sabemos que muitos, agora, estando a tirar o doutoramento, são já professores. Sem esse estatuto, sem esse vínculo e sem o salário correspondente, estão sujeitos às bolsas de doutoramento e depois às bolsas de investigação, que sabemos o quão precárias são. É preciso rever essa situação. Os bolseiros de investigação podem contribuir para uma academia mais diversa, justa e com maior capacidade de captar e reter as pessoas formadas cá, em Portugal, e aqui em Coimbra.

Quando falamos da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), para onde é que passaria a reavaliação da estrutura e os princípios da mesma que o PCP propõe?

Em primeiro lugar, a FCT não pode continuar a ser vista como uma espécie de empresa para o trabalho temporário. Tenho falado com investigadores da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica, por exemplo, que nos dizem que fazem o estudo para as suas candidaturas e todas as burocracias ligadas são aceites. Começam a trabalhar, mas, passados um ou dois anos, já têm de estar preocupados. Em vez de efetuar a sua investigação e trabalho, têm de preparar a sua candidatura para o próximo contrato de investigação. A FCT tem de garantir que um investigador tenha contrato de trabalho. É uma visão clara. Um investigador que está na UC cumpre o horário de trabalho, faz um trabalho essencial e não tem nenhum vínculo relacionado com o trabalho que desenvolve. É um investigador que, quando apanhar uma oportunidade para ir para o estrangeiro, não fica cá. A FCT tem de mudar aqui a agulha e deixar de ser uma empresa de trabalho temporário, para passar a ser, de facto, uma instituição que promova a investigação e que dê condições aos investigadores para a poderem fazer.

ECONOMIA

A universalização do abono de família e valorização dos seus montantes é uma das medidas propostas pelo PCP para assegurar a autonomia económica e social das famílias. Como é que isto funcionaria na prática?

Alargar os critérios para que todas as crianças tenham direito ao abono de família e que esse valor seja majorado. Há uma parte da economia que é sempre esquecida, ou melhor, fala-se dela, dos salários. Aquilo que nunca é ligado, e deve, é que os salários fazem parte da economia. Os salários maiores significam melhores contribuições para o Estado, mais ajuda para o financiar. Depois, no Instituto Nacional de Estatísticas, à pergunta feita aos empresários – “Qual é o principal obstáculo das suas empresas?” – trata-se com o escoamento do seu produto. Este faz-se com a venda e com a compra. Não havendo o poder de compra no mercado interno, é difícil a economia crescer mais. Agora, soluções como as que vemos, onde apresentam o aumento dos salários para o crescimento da economia, é absolutamente bizarro. Quanto ao abono de família, queremos que cada criança tenha direito ao abono de família, porque as pessoas têm direito a viver com dignidade.

De que forma o PCP pretende melhorar os salários e as condições de trabalho, especificamente, dos professores?

No ES, ou no geral, nós propomos, na função pública, a revisão da tabela remuneratória. Ela sofreu agora uma revisão em janeiro, mas não é suficiente. É preciso majorar os salários, é preciso que haja progressão na carreira. No caso dos professores, é essencial não só que haja progressão, mas que a carreira não lhes seja roubada. Propomos a contabilização de todo o tempo que lhes foi roubado, porque foi tempo das suas vidas que não pode ser apagado. Aquele tempo foi trabalhado, descontado e, portanto, os professores têm todo o direito a ver a sua carreira totalmente contabilizada. Isto é um sinal que se pode dar aos professores e a outras carreiras, o sinal de que o Estado está empenhado em melhorar as suas condições laborais.

Não é admissível que, haja períodos que não sejam contabilizados. Sabemos que o PS começou o congelamento e, noutras carreiras, o PSD. O que é certo é que nenhum deles esteve, até agora, disponível para contabilizar todo o tempo, a não ser agora, em momento de campanha eleitoral, onde o ministro da educação diz estar disponível para rever esta questão. Quanto a nós, como se costuma dizer, a melhor prova do pudim é comê-lo. Portanto, é preciso ver como é que as coisas se repercutem na Assembleia da República. O PCP fez essa proposta, tiveram boa oportunidade para aprovar, não aprovaram. Isto é um sinal para melhorar as condições de vida dos professores e das suas carreiras.

No debate com André Ventura, Paulo Raimundo defendeu a ideia de que a única forma de combater a corrupção é atacar o centro da corrupção, que está nas privatizações. Poderia explicar o porquê dessa conclusão?

Sim, e eu até iria mais longe, diria que o que essa frase também quer dizer é que a única forma de combater a corrupção é combater o capitalismo. E as privatizações são um exemplo claro de promiscuidade. A corrupção é proporcionada pela promiscuidade que existe entre o poder económico e o poder político. A nossa Constituição é muito clara, diz que o poder económico está subordinado ao poder político, mas aquilo que tem sucedido é o contrário, e quando assim é, a corrupção é suscetível.

De privatizações, por exemplo, temos o caso da ANA Aeroportos, que é paradigmático. O Tribunal de Contas arrasa a privatização, que foi danosa para o Estado, para as pessoas. E temos agora a Vinci a lucrar milhares de milhões de euros, com uma curiosidade, o senhor Arnaut do PSD, que tutelou a pasta dos aeroportos quando esteve no Governo, depois de privatizarem a ANA foi para o seu conselho de administração e lá se mantém. Por algum motivo, o PSD tem muita dificuldade em encontrar uma solução para o aeroporto, porque a ANA não quer o aeroporto em Alcochete. Mas a ANA não manda em Portugal, nem pode mandar na localização e decisões estratégicas do país. É um exemplo de como uma privatização coloca o poder económico a tentar manipular uma decisão que é política.

As privatizações têm estas negociatas que lesam o país, como é o caso da Altice, outra empresa que era pública e que foi privatizada. Dirão: “a gestão pública não é suscetível à corrupção?”. Também será. Mas também é suscetível a maior controlo, porque é do Estado e é muito mais fácil o seu escrutínio. Por isso é que eu acho que essa frase do meu camarada foi certeira.

Paulo Raimundo também afirmou que a emigração é um grande problema em Portugal. Quais são as bases do PCP para atrair os jovens e estudantes portugueses a permanecer, neste caso, em Coimbra?

Em primeiro lugar, sabemos o que é que não nos faz emigrar. Não é a taxa de IRS. Os jovens emigram para países onde a carga fiscal é superior à nossa. Portanto, aquela ideia de que os impostos levam os jovens para fora do país não é verdadeira. O que leva a que os jovens saiam é a falta de condições que têm para cá viver, a falta de salário e de habitação. Em Coimbra, é preciso resolver a situação da habitação, porque aqui sente-se de forma mais grave. Quanto a isso, nós temos algumas medidas. Uma delas é tabelar o preço máximo do valor das rendas, proibir despejos e limitar os aumentos indiscriminados de renda no fim das denúncias dos contratos. Não é possível o senhorio terminar hoje com contrato de arrendamento para, no dia a seguir, celebrar outro 200 euros superior. Falando da questão dos créditos à habitação, é preciso colocar os lucros da banca a sustentar as despesas com os juros e, com isso, baixar o valor do crédito à habitação. A banca não pode lucrar sempre que tem prejuízo. O Estado põe lá dinheiro quando tem milhões de lucro e os jovens vêem-se numa situação complicada na tentativa de ter a sua casa.

Depois são os salários e as carreiras, é preciso que em Coimbra haja um investimento público sério na ciência e na justiça. Propomos, de uma vez por todas, que se construa o novo Palácio da Justiça, porque não há condições para exercer a justiça nas mais variadas profissões que existem em Portugal. Esta proposta é nacional, mas tem efeitos em Coimbra, naturalmente. Propomos o aumento do salário mínimo para 1000 euros em maio, porque ele é possível, depois um aumento de 15% em todos os salários. Sabemos que não se pode fazer por decreto, mas sabemos que a Administração Pública pode, o Estado pode.

15% até ao final da próxima legislatura?

Não, 15% já. O estado tem de dar o sinal, enquanto entidade patronal, para aumentar. Depois, uma outra medida para complementar, é revogar a caducidade da contratação coletiva da comissão coletiva de trabalho, porque, enquanto não for revogada, os patrões têm a negociação e os trabalhadores perdem o poder de negociação. Ora, isto o Paulo Raimundo também o tem vindo a dizer. Significa, num total, a transferência de 15 mil milhões de euros do capital para o trabalho, quando, no ano passado, por exemplo, todo o capital português ganhou em lucros 40 mil milhões de euros. Portanto, menos 15 mil milhões, acho que não ficavam aflitos. A habitação, os salários, o investimento na ciência, na justiça, acho que são boas medidas para fazer com que os jovens fiquem aqui em Coimbra.

Qual é a posição do PCP de Coimbra em relação às repúblicas e às suas condições, ou falta de condições?

Sei que têm acertado as negociações, em colaboração com a Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Mais uma vez, dizem que somos obcecados com o Estado. Mas a CMC, até por não ter a capacidade de adquirir as repúblicas, tem de ter uma designação própria e de interesse municipal. É boa, mas não é suficiente. E o Estado tem de garantir que elas continuem a existir com as características que hoje têm, e não como já vimos algumas pretensões, como se vê num regulamento da autarquia. Eu não sei como é que aquilo terminou, mas fazia entender, também sobre as repúblicas, a obrigatoriedade de deixar de visitar como se fosse como um ponto turístico e de abrir para visitas. Isso não é algo que nós vemos com bons olhos. Portanto, é preciso garantir que o Estado consiga a designação de interesse nacional para as repúblicas como património para, com esse estatuto, poder fazer os investimentos necessários. As repúblicas contribuem muito para a questão da habitação dos estudantes em Coimbra e não nos parece legítimo que não sejam vistas como parte da resolução.

Como é que o PCP pretende combater os despedimentos e criar mais postos de trabalho em Coimbra?

Coimbra é um exemplo das consequências da política da Comissão Europeia em Portugal. Quem anda por Coimbra e arredores vê muitas fábricas abandonadas e sabemos que, nos anos 90, foram muitos os fundos para se deixar de produzir no campo, para se deixar de produzir nas fábricas e para deixar de se pescar no mar. A CDU tem uma política para o país e para a região de Coimbra de reindustrialização. Para isso, é preciso investimento público e privado. A cidade tem se transformado muito na área terciária de serviços, mas isso não corresponde, porque as áreas em que os jovens aqui se formam não têm saída profissional na cidade, nem na região. Nós apostamos na reabilitação com um investimento público, mas também privado, para poder voltar a ter uma região que produza. Nós não podemos estar assentes numa economia de serviços, é preciso produzir e é essa a nossa linha.

TRANSPORTES

No que toca aos transportes, de que forma é que se pode, a nível nacional, defender os interesses de Coimbra em termos de mobilidade além do Metro Mondego, nomeadamente no que diz respeito aos transportes intermunicipais?

Coimbra tem tido um problema enorme com os transportes. Os SMTUC prestam um serviço essencial à população e têm sofrido um contínuo desinvestimento. É preciso investir em novos autocarros, mais modernos, mais ecológicos, resolver o problema das carreiras dos motoristas, melhorar os armazéns, porque as condições em que os mecânicos trabalham são lamentáveis e é preciso reforçar rotas. Na questão da mobilidade de Coimbra, no panorama nacional, temos a questão do TGV que é uma via estruturante para o país e é um investimento que já devia ter sido construído. O facto de ele passar e parar em Coimbra B faz com que a cidade ganhe também aqui uma centralidade, mas opomo-nos é que, nesse traçado, seja feita uma nova ponte sobre o Choupal. Há alternativas, não é preciso onerar o Choupal com mais uma ponte.

Não se pode perceber ou querer ver o papel de Coimbra ou a centralidade de Coimbra no panorama dos transportes nacionais, sem olhar para o crime económico, social e ambiental que se preparam para fazer, que é encerrar a Estação Nova. Não se pode apostar ou dizer que se aposta em transportes públicos quando se levantam linhas de comboio. Nisso, connosco não contam. Encerrar a linha entre Coimbra B e Coimbra A é um erro. Sabemos que aqueles terrenos são muito apetitosos para os grupos imobiliários e que já há grandes negociatas para aquela zona. Tirar a Coimbra uma estação ferroviária central, onde chegam milhões de pessoas por ano, é um crime económico, ambiental e  social. Portanto, a CDU opõe-se firmemente ao encerramento dessa estação.

Necessitamos de um investimento sério na ligação entre Coimbra, Figueira da Foz, Lousã ou Cantanhede. Numa entrevista, creio que ao Diário das Beiras, o presidente do PS da Federação Distrital de Coimbra coloca em causa a ligação ferroviária entre Coimbra e Figueira da Foz, numa lógica de expansão do Metro Mondego. Essa solução nunca vai contar com o apoio da CDU. É preciso interligar as várias regiões, não só dentro do distrito de Coimbra, mas também fora. Para isso é preciso construir e repor linhas de comboio. O comboio é o transporte do futuro, é ecológico, consegue levar muita gente ao mesmo tempo. No entanto, durante os governos do PS e do PSD, foram levantados centenas de quilómetros de linhas de caminho de ferro e têm sido repostos poucos. Temos o exemplo do ramal da Lousã, o de Alfarelos… todas essas linhas de comboio que não foram terminadas.

Sabemos que deputados eleitos por Coimbra votaram contra as propostas do PCP para a requalificação do IP3 e também para minar vias essenciais como IC6 e IC7. A ligação da zona do distrito à Serra, a Oliveira do Hospital, que vai entroncar com as vias da Serra da Estrela, com Viseu, com Castelo Branco, tem de ser feita. Quanto à questão da área metropolitana de Coimbra, há problemas que podem e já deviam ter sido resolvidos sem a necessidade de criação de uma área metropolitana. O que é preciso é vontade política em investimento.

Qual é a sua opinião fixa em relação a Coimbra, enquanto área metropolitana, que tanto o PS e o PSD têm falado nesta campanha?

Nós achamos que é mais um mantra para quem não quer falar do essencial. O que é que garante que uma área metropolitana de Coimbra vem acompanhada com mais investimento, com mais instrumentos e com mais capacidades? Nada. A fusão do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra é o exemplo disso. Existiam dois hospitais centrais na cidade que foram fundidos num só, o que resultou num serviço pior, no desmantelamento do Hospital Geral dos Covões e na diminuição da capacidade de resposta. Portanto, não é certo que a criação da área metropolitana de Coimbra faça corresponder às necessidades das pessoas. Não quero, com isto, dizer que somos contra, mas não vemos isso como uma resposta.

Em 2022, a abstenção nas eleições legislativas foi cerca de 35%. Quais são as estratégias do PCP para diminuir esta percentagem em Coimbra?

A nossa campanha é, no fundo, intensificar aquilo que fazemos durante todo o ano, que é contactar com as pessoas onde elas estão, quer à frente dos serviços públicos, quer dos seus locais de trabalho, e tentar esclarecê-las no meio da gritaria. Achamos que isso é um contributo para que as pessoas conheçam as suas opções e se possam sentir identificadas, verem que o que está em causa é, de facto, escolhas para a governação do país.

Há aqui uma questão mais profunda, a visão sobre o que é a democracia. Tem dado muito jeito aos grandes partidos considerar que a democracia é um ato eleitoral de quatro em quatro anos e isso tem levado ao afastamento das pessoas. Para nós, a democracia é a participação das pessoas em todos os aspetos da sua vida. No seu local de trabalho, nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, nas associações de utentes, da cultura e do desporto. Essa participação democrática é importante e tem de ser fomentada, o que não tem acontecido. A nossa é a de que a democracia é muito mais do que ir votar de quatro em quatro anos. É o ponto alto da democracia.

Em relação à política, tem muito que ver, por exemplo, com a forma sobre como quem faz política se designa a si mesmo. Falam-se enquanto pertencentes a uma classe política. Para a CDU, não existe nenhuma classe política, são as pessoas que fazem a política e, portanto, essa classe está aqui a criar uma divisão entre o nós e o eles. Não posso dizer que haja uma estratégia específica para reduzir a abstenção, senão aquela de ir ao encontro das pessoas, esclarecê-las com as nossas ideias e propostas. Depois, as pessoas fazem a sua avaliação. O nosso primeiro objetivo é que vão às urnas e que votem, porque a governação do país, a Assembleia da República, mexem com todos os aspetos da nossa vida. Não ir votar é estar a deixar a nossa vida ser decidida por pessoas que nós não escolhemos. Isso não é positivo.

Se for eleito, que posição vai tomar na Assembleia da República como deputado por Coimbra? Que questões vai levar?

A questão da saúde, a da nova maternidade de Coimbra, a do IP3, a da erosão costeira na Figueira da Foz. A questão da habitação, do Ensino Superior, do IC6. Nós temos muitas propostas para a região, para colocar enquanto deputado eleito pelo círculo de Coimbra. Uma das mais importantes seria, no imediato, colocar a votação no encerramento da Coimbra A e defender a manutenção daquela estação que muito diz às gentes não só de Coimbra, mas de toda a região, que ali chegam. Seriam estas, entre outras, as propostas que colocaria na Assembleia da República.

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