Crónicas

Entre nous, a partilha da vulnerabilidade

Por Bruno Lopes Oliveira

Chegou no passado dia 15 à Casa do Cinema de Coimbra o novo filme de Alexander Payne, um filme natalício que nos chega fora de época. Ainda assim, não se recomenda que se deixe passar a oportunidade, até porque o Natal é quando uma pessoa quiser. Este filme, candidato a cinco Oscars, incluindo o de melhor filme, não vence o espectador pela originalidade ou pela fotografia. Vence sim, pela familiaridade, pela problematização da nostalgia, pelo incrível argumento e pela cor. A cor e Paul Giamatti unem toda esta obra.

O cenário já o conhecemos. Um colégio interno de elite. Segunda metade do século XX. Aparenta imperar a tradição, a ordem e o mérito académico. A austeridade como via para os bons costumes. Mas aos poucos o realizador vai-nos revelando as contradições, todas elas encabeçadas pelo protagonista Paul Hanham. Um professor de história que revela estar frustrado com o estado da escola, e por consequência do país.

Lentamente vamos espreitando por esta janela, por onde podemos ver uma sociedade minada pela Guerra (o filme acontece no final dos anos 60’ nos EUA). Guerra essa que mantém uma presença latente ao longo de todo a história. Sendo uma ameaça que paira sobre todos os jovens.

Vemos personificações de desigualdades económicas e socias. Quando sabemos que existe pressão sobre Paul para passar o filho de um dos grandes doadores da escola, quando compreendemos que o acesso à melhor educação é exclusivo para aqueles que a podem pagar e quando descobrimos que Mary perdeu o filho para a Guerra, porque não havia dinheiro para a universidade. O retrato de uma sociedade disfuncional, revelado através de uma nostalgia perversa.

A trama segue o professor Paul Hanham que fica responsável por supervisionar os alunos que vão passar as férias na escola, por escolha das famílias. Entre eles está Angus, um jovem que descobriu à última da hora que teria de ficar por ali, muito contra a sua vontade. A sua mãe decidiu passar o Natal apenas com o novo marido, o padrasto de Angus.

Os dias passam e resta apenas o Professor, desprezado pelos seus alunos devido à sua rigidez. Angus, um bom aluno com tendência para sarilhos e Mary a cozinheira de serviço. As personagens partilham entre si uma falta de vontade de ali estar. Todos carregam as suas cruzes. No entanto, assistimos a um crescimento gradual da vontade de compreender o outro e assim a relação entre Angus e Paul desenvolve-se. Pouco a pouco, esta dupla improvável partilha entre si a sua história, as suas preocupações, os seus segredos. Contam mentiras, e mais tarde são forçados a confessar. Desculpam-se e continuam. Entre discussões, tentativas de fuga, ameaças, aventuras na cidade mais próxima até Boston, rasgos de honestidade desenfreada etc., derrubam a imagem que têm um do outro. Sempre conscientes de que a cada momento ficam mais vulneráveis, criam uma relação de cumplicidade. Com o cuidado de ir exigindo ao outro confidencialidade. “Entre nous”, vão repetindo, tudo isto fica apenas entre nós.

Essa vulnerabilidade a que se permitiram, um com o outro, contrasta em tudo com a realidade que os rodeia. Por esse retrato, pelas histórias que contam e pela performance de Paul Giamatti o filme merece ser visto.

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