Cidade

Clara Cruz Santos e Pedro Cravino Serra pelo LIVRE: “O voto útil é para uma voz uníssona no parlamento”

Luísa Rodrigues

Numa altura decisiva para a cidade e o país , o Jornal A CABRA trabalhou num calendário de entrevistas com todos os cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Coimbra dos partidos com representação parlamentar. Nesta primeira entrevista, conversámos com Clara Cruz Santos (docente na Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação da Universidade de Coimbra) e Pedro Cravino Serra (empresário), candidatos do partido LIVRE, sobre a Educação, a Economia e a representatividade de Coimbra no Parlamento. Por Bruna Fontaine e Clara Neto

Rui Tavares, representante nacional do LIVRE, sublinhou que o partido pretende lutar e defender a democracia a todo o custo. Atualmente, quais são os desafios à democracia e quem é responsável pela instabilidade democrática?

Clara Cruz Santos

Os grandes desafios à democracia, ou seja, o momento que estamos a passar agora em Portugal, têm que ver com as condições estruturais que estamos a viver e com os desafios internacionais à Liberdade. Estamos a viver um conjunto de circunstâncias de precariedade e insegurança, que conduzem os indivíduos a uma situação de grande instabilidade e de medo. O medo é um grande desafio e um grande aliado dos movimentos antidemocráticos.

Em Portugal, e em termos estruturais, penso que a grande instabilidade económica e profissional, advém do aumento dos preços, da diminuição das condições de vida, do aumento da base alimentar e dos desafios que se colocam à falta de habitação e à habitação desregulada. Este mercado desregulado tem conduzido a que haja uma forte instabilidade sentida pelos cidadãos ou uma forte precariedade que leva a um desânimo em relação ao futuro ou à sua situação de vida atual.

Este desânimo tem impactos muito fortes na vida das pessoas e nas famílias. Leva a que as pessoas tenham sentido um descrédito muito grande nas instituições sociais, privadas, públicas e no Estado, enquanto o grande suporte de uma democracia, de um Estado social. O mesmo desânimo tem levado também a um grande desejo de alteração radical das suas condições de vida. Ora, este descrédito, esta falta de confiança, esta relação de instabilidade com o Estado, bem como a precariedade, são elementos que conduzem à fragilidade da democracia em Portugal.

Por outro lado, temos um conjunto de conflitos a nível europeu e Internacional que vão reforçar também esta incapacidade das pessoas, este sentido de cederem ao medo, à instabilidade e à dificuldade na mudança. E, como tal, também leva à perda de identidade e à perda do investimento ou do reconhecimento de um Estado, onde a democracia é a base fundamental para a dignidade e os direitos humanos.

ECONOMIA

Uma das novidades apresentadas no plano eleitoral do LIVRE foi o conceito de uma “herança social”. Como funcionaria este instrumento e qual é o benefício da implementação desse fundo?

Clara Cruz Santos

A herança social, em termos de financiamento, teria que ver com uma taxa, um imposto sucessório mais especializado em grandes heranças e grandes doações. Iria constituir um fundo social, a constituir-se como um fundo a ser utilizado para ajudar os jovens no início da sua carreira, da sua vida, ao atingir a maioridade, por exemplo, ao nível de utilizarem este valor para os seus estudos, para a sua implementação e garantia.

Pedro Cravino Serra

Portanto, para ser usado quando se atingisse a maioridade aos 18, até aos 35 anos. Durante esse período, o Jovem poderia usar esse dinheiro disponibilizado pela sociedade via Estado, para usar para como um investimento pessoal, para a sua formação, ou para construir uma empresa. Pois, embora que alguns pais tenham dinheiro suficiente para ajudar os filhos, outros não têm condições para fazer isso. A sociedade via Estado estaria a fazer esse papel, estaria a dar-lhes um empurrão.

As taxas sobre as heranças são apenas um dos mecanismos. É preciso estudar os meios, isto não é para implementar já. O que o programa do LIVRE diz é, tal como conseguimos que se fizesse para a semana de quatro dias, haver um estudo piloto para avaliar como é que isso pode funcionar e como é que pode ser financiado. Portanto, seria ir buscar algo que já faz parte do acumulado da riqueza das grandes heranças como um dos mecanismos. Outro mecanismo seria uma coisa tipo Taxa Tobin, sobre as transações financeiras ou outras que decorreriam da avaliação em estudo e, depois, do entendimento entre as forças políticas que o apoiaram, caso vier a ser aprovado ou quando for aprovado.

Acrescenta Clara Cruz Santos

É importante que tenham consciência de uma coisa. Todas as propostas mais disruptivas ou que sejam consideradas mais inovadoras por parte do LIVRE nunca vão ser implementadas sem haver projetos piloto e estudos sobre as mesmas, ou seja, não é possível chegar à sociedade e dizer: “vamos fazer isto”. Portanto, o LIVRE tem esta preocupação de dialogar com a sociedade, de implementar, de ver se é possível ou não ajustar as medidas.

Propostas como o aumento do salário mínimo para 1150 euros até 2028 e a semana laboral de quatro dias, que integram o vosso plano eleitoral, afetam o futuro profissional dos estudantes e dos jovens de hoje. Quais são os métodos projetados para aplicar estas medidas?

Clara Cruz Santos

Então é assim, exatamente como nós falamos da herança social, a semana de quatro dias já foi uma proposta de Livre que foi estudada e implementada em por cerca de mil empresas. Por isso, sabemos da sua capacidade transformativa e da sua sustentabilidade. Tendo em conta que a semana de quatro dias não significa trabalhar em quatro dias as horas de uma semana, é mesmo uma redução do horário. Então, os resultados que obtivemos indicaram que não houve uma diminuição de produtividade das empresas, mas sim uma melhoria relativamente ao bem-estar social e à pegada ecológica.

É importante que se tenha em conta que também, quando falamos do aumento do bem-estar dos trabalhadores, tivemos um momento pós-pandémico em que o gasto por ‘burnout’ dos trabalhadores, com faltas por doença, com doenças mentais associadas a processos de grande desgaste físico, o que se reflete com um enorme aumento da despesa social.

Não há diminuição nem aumento da produtividade, mas há aumentos de rendimentos indiretos. Isto uma vez que a saúde dos trabalhadores, o bem-estar dos trabalhadores, e a conciliação trabalho e família, são também um ganho social muito importante e um ganho de rendimentos muito importantes.

Nós propusemos agora o aumento do estudo da medida a outras situações mais públicas. Vamos ver, este faz parte também do projeto de campanha do LIVRE e queremos que seja ampliado para ser ainda mais estudada a sua capacidade e impacto. Se isto tiver um resultado positivo para vocês, enquanto futuros trabalhadores, significa que queremos que vocês tenham uma qualidade de vida muito melhor do que aquela que muitos de nós tivemos.

Pedro Cravino Serra

Queremos que esta proposta se alastre a toda a gente, mas primeiro nem vai ser um grande ganho, considerando a questão destes dois anos de inflação e que nem sequer terminaram. Eu não vou falar da inflação geral, mas para as pessoas que ganham o ordenado mínimo nacional as componentes da inflação não aumentaram 7% ou 10%. Na verdade, se formos ver os preços das coisas, está mais nos 50% de dois anos para agora. Se subir até aos 1150 euros até 2028, já está logo coberto bastante pela inflação, ou seja, é conseguido pela inflação em si. No esquema económico de inflação, devia ser fácil subir boa parte disso. Tudo o resto advirá da própria economia conseguir gerar riqueza. Há uma riqueza que se gera e que tem que ser bem distribuída. Temos de decidir onde é que se distribui. Nós achamos que deve ser distribuída em toda a escala, obviamente, mas se por baixo começarmos bastante alto estamos a contribuir para que isso alastre ao resto da economia.

Clara Cruz Santos

Em termos de investimento económico, há algumas medidas do LIVRE que vão permitir essa sustentabilidade. Dentro do programa, nós temos medidas que permitem o aumento das receitas do Estado que têm a ver com medidas reparatórias. Nós não somos contra os impostos diretos, nós somos contra os impostos indiretos. Portanto, a continuidade do aumento das receitas do Estado, não só é baseado na taxação dos trabalhadores, mas também noutro tipo de medidas que têm em conta o combate à evasão fiscal, à fraude, e a todos os mecanismos que tenham, no fundo, prejudicado a nossa economia. Alguns de caráter legal, como a zona franca da Madeira, que têm esvaziado o cofre do Governo Nacional. Depois existem outras medidas, não de caráter reparador, que tem a ver com o aumento das receitas, do aumento da economia, criando parte de uma devolução importante e do envolvimento da sociedade civil num trabalho cooperativo: através da sustentabilidade da habitação, da sustentabilidade de algumas empresas que possam ser desenvolvidas, do trabalho cooperativo, do aumento e da formação do investimento ao nível das pequenas e médias empresas.

E além de que, é importante também que o LIVRE tenha como base a economia local. É importante fomentar a economia, social, circular e a local, para que os próprios distritos tenham em si as forças vivas necessárias para o desenvolvimento de outras atividades que possam, evidentemente, fortalecer cada zona.

O LIVRE classifica-se como um partido europeísta, mas de que forma esta ideologia se reflete a nível regional, mais especificamente no LIVRE em Coimbra?

Clara Cruz Santos

O facto de o LIVRE ser europeísta, não tem um impacto direto a nível local. Terá a nível nacional, ou seja, o LIVRE defende que Portugal deve continuar a integrar a União Europeia, que deve continuar a fazer parte dessa grande união que nos tem, de alguma forma, protegido e permitido o acesso a um conjunto de estruturas ou de programas, com base na solidariedade entre os povos e na sua génese: a relação de que todos unidos seremos mais fortes face a outros continentes.

Pedro Cravino Serra

Eu diria que tem um impacto local por todas essas obras que vemos aqui em Coimbra sem os dinheiros europeus não serem possíveis. Na verdade, até se ao nível local se fizesse trabalho para relacionar mais vezes à União Europeia, mostrar que isto podia ser diferente, como poderiam ser alvo as obras para o Metro Mondego.

EDUCAÇÃO

O LIVRE quer eliminar as propinas no 1ºciclo e no ano curricular do 2ºciclo. Qual seria o suporte financeiro para esta medida que vem acompanhada com a proposta de reforçar os apoios sociais aos estudantes universitários (que por sua vez requer mais suporte económico)?

Clara Cruz Santos

No segundo ciclo o programa pede uma revisão, já no primeiro ciclo pede a eliminação das propinas. Relativo ao apoio financeiro, o LIVRE propõe um aumento da transferência do Estado para a Educação, uma vez que tem sido muito reduzida. Tem havido um subfinanciamento crónico das Instituições do Ensino Superior e, neste momento, inclui só 1,73% do PIB nacional.

Este aumento vem, não só trabalhar por questões estruturais do Ensino Superior, como por estruturas com a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), mas também a situação dos estudantes. Para já, nesta primeira fase, propomos o aumento do financiamento do Ensino Superior e a sua aplicação por escrito, na Constituição da República Portuguesa.

Pedro Cravino Serra

Tendo em conta que, ao nível de investimento público e particularmente no Ensino Superior e investigação científica, tem vindo a reduzir-se, o dinheiro que surge da diminuição da dívida pública pode ser aplicado aqui. O dinheiro que sobe dos Superávites, pode ser a aposta destas medidas.

Acrescenta Clara Cruz Santos

Além de que, é importante também referir que o LIVRE tem uma medida que, para mim, é essencial ao nível do Ensino Superior, que tem a ver com a revisão dos estatutos de participação dos estudantes nos programas Erasmus+, e outros programas de mobilidade internacional. Porquê? O que nós temos vindo  a observar,  e eu observo como docente, é que os alunos com menos oportunidades financeiras não têm a possibilidade de participar nesses programas. No fundo, estes programas dão outras competências aos alunos com essa possibilidade e tornam-nos mais competitivos no mercado de trabalho, o que aumenta a desigualdade. Eu tenho e temos lutado muito por esta medida, porque eu vejo e sinto mesmo na pele o que é ver alunos que não podem participar nestes programas.

O programa do LIVRE fala em repensar a realização obrigatória dos exames nacionais  e procurar alternativas para o ingresso ao Ensino Superior. Quais seriam essas alternativas e qual seria o impacto nos diferentes pilares do Ensino Superior?

Clara Cruz Santos

A ideia será tornar mais igualitário o acesso ao Ensino Superior. Embora já exista, em termos da educação profissional, a possibilidade de ingresso ao nível do Ensino Superior, há um número muito reduzido de formações. Portanto, o aumento seria para que os alunos que optam no 12º ano por outras opções que não sejam a via científica possam ter o acesso equivalente ao Ensino Superior, com a abertura de novos perfis de estudante. Depois temos alunos com necessidades educativas especiais, que têm um contingente muito reduzido ao nível do Ensino Superior, e é preciso igualar as oportunidades.

Outra das propostas é transformar o 12º ano num Ano Zero de entrada na universidade e politécnicos. Que utilidade Ano Zero teria para jovens que não desejam frequentar o Ensino Superior?

Clara Cruz Santos

O Ano Zero de preparação para a entrada na universidade prevê também a preparação para a entrada no mercado de trabalho, ou seja, prevê o trabalho já dentro das universidades, mas também prevê a articulação com formação profissional e com empresas. Está assegurado, quer a vertente de quem quer seguir a vida universitária, quer a de seguir outro tipo de vias.

A vossa proposta de revisão do Plano Nacional para o Alojamento do Ensino Superior (PNAES) inclui, e passo a  citar, “medidas como a conversão de edificado público em residências estudantis e o reforço de dotação orçamental para que autarquias e universidades possam desenvolver os seus próprios projetos de alojamento estudantil”. Como é que estas medidas poderiam ser realizadas, uma vez que ambas requerem um longo tempo de investimento público?

Clara Cruz Santos

É preciso começar já. Aquilo que o LIVRE está a fazer é dizer: “ponham em prática o que prometeram”. Não é uma medida que não fosse pensada e discutida várias vezes a nível parlamentar. A questão é várias medidas ficam na narrativa política e não são implementadas, e as consequências deste fator verificam-se em Coimbra. Quartos a 300 e tal euros, sem condições, e ainda, neste momento, temos a falta de uma residência universitária que está prometida há quanto tempo? Há muitos anos que devia ter arrancado.  Temos muitos imóveis devolutos e abandonados só na cidade de Coimbra. Estes já podiam ter sido aproveitados se houvesse realmente um claro investimento da autarquia nesta área, em colaboração com a Universidade. A resposta está em ter prioridades políticas e ter a coragem política de as fazer, o que não parece que tenha sido feito. É cumprir, está tudo previsto.

Pedro Cravino Serra

Está previsto que vai chegar dinheiro para as residências universitárias. Nós, do LIVRE de Coimbra, contribuímos para identificar prédios que eram possíveis de transformar, até mais ou menos rapidamente, que até a própria Câmara diz que é uma possibilidade. Imóveis como o antigo quartel-general, mas também propusemos a Manutenção Militar. O presidente da autarquia quer esta última para um centro cultural de arte contemporânea. Tudo bem, também é importante. É uma questão de identificarmos e não largamos nenhuma das componentes, nem a cultural, nem a da educação.

Clara Cruz Santos

E também, para nós, seria importante que a Associação Académica de Coimbra (AAC) tivesse aqui um peso maior em termos de reivindicação destes direitos e desta instabilidade que os estudantes vivem. Podia ser importante que a AAC tivesse um peso maior, porque ela tem esse poder. E aqui apelamos à AAC, como representante dos estudantes universitários, para que se unam para fazerem este trabalho connosco. Isto não está só do nosso lado, também está do vosso.

O LIVRE propõe “prevenir e combater o assédio nas instituições de Ensino Superior, tendo um Mecanismo Nacional de Combate ao Assédio no Ensino Superior dentro da orgânica da Inspecção Geral do Ensino Superior”. Como é que funcionaria este  Mecanismo?

Clara Cruz Santos

Já existe uma estrutura ligada às questões da inspeção do Ensino Superior. A ideia seria que essa estrutura, muito graças a esta nova competência ao nível de repulsa do assédio moral, sexual e social, no Ensino Superior, além de integrar essa medida,  depois pudesse coordenar e supervisionar também as ações a nível local. Aqui, na Universidade de Coimbra, a ideia é que haja mecanismos rápidos destes processos, mas que, acima de tudo, sejam associados aos processos de visibilidade e reparadores, ou seja, em que vítimas e agressores tenham acompanhamento imediato.

Não é possível só apontar o dedo. Nós não podemos continuar numa medida política de apontar o dedo aos problemas. É preciso apontar soluções. E as nossas soluções vão por aí, são muito concretas, muito fáceis de implementar. É só um bocadinho de investimento que permite fazer toda a mudança.

O LIVRE defende a internacionalização das instituições de Ensino Superior, mas como é que isto seria possível na atual realidade, onde os próprios universitários portugueses têm dificuldade no acesso às residências estudantis?

Clara Cruz Santos

A internacionalização passa por uma parte que eu acho muito importante: a revisão do regimento do Erasmus+ e dos protocolos. Nomeadamente na parte de residência europeia, aqui nós sentimos que os alunos, muitas vezes, quando vêm para cá têm muita dificuldade em ter nos campus universitários acesso às residências oferecidas. Este é um trabalho que tem por base os normativos do programa que, de acordo com os normativos europeus, estão pensados desta forma. Dentro das nossas residências universitárias, que não estão a ser suficientes para os alunos nacionais, têm de se assegurar também algumas quotas para os alunos exteriores.

Alguns movimentos em Coimbra são importantes, como o da Casa da Lusofonia, onde existem já espaços dedicados relativamente às habitações, habitações conjuntas que têm sido sinalizadas e que têm sido um movimento muito bom dos estudantes para os estudantes. Eu acho que devíamos reforçar esta vertente. Um colega nosso do LIVRE, o Bruno Pedrosa, há pouco tempo, apresentou um pequeno documentário sobre a necessidade de criar uma cooperativa de estudantes que aproveitasse uma habitação degradada ou devoluta como habitação de estudantes. Penso que esse pode ser um bom caminho, porque há financiamento possível, há possibilidades de o fazer. Tendo como meio este envolvimento participativo, de construir respostas inovadoras locais, que possam dar respostas aos problemas locais.

Pedro Cravino Serra

Nós achamos que o fenómeno dos devolutos já identificados não são os que ainda hão de vir com esta nova legislação do Mais Habitação. Tem de se incrementar esse número de devolutos, não podem só existir no papel. O passo a seguir é conseguir que  sejam favorecidos por mecanismos como isto, por exemplo, da cooperativa de estudantes que se chega à frente com a ajuda da AAC, para que passasse de um nome para um objeto, que é possível usar, alugar e ocupar como habitação de estudantes.

Podia falar melhor sobre a proposta do Livre para a revisão do Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES)?

Clara Cruz Santos

Então, as propostas têm sido relativas à consolidação estrutural das Instituições do Ensino Superior e, por outro lado, ao reforço da FCT, da revisão da forma como tem sido feito a ciência e como tem sido gerida.  E ainda um terceiro vetor, que tem a ver com a precariedade do emprego científico em Portugal.

Então ao nível da primeira, da parte estrutural o RJIES vem trazer um aumento de financiamento que tem a ver com o facto de as Instituições do Ensino Superior estarem sujeitas ao subfinanciamento crónico por parte do Estado. Tem de haver, com um maior suporte financeiro por parte do Estado e com a maior relação com as autarquias locais, uma relação e trabalho conjunto de desenvolvimento com vista a uma maior visibilidade ao nível, por exemplo, da carreira de docente.

Devemos lutar contra a precariedade de alguns contratos a prazo na carreira de investigação. Promover o seu reforço para uma maior estabilidade, algo que tem de ser protegido e é impensável continuar a pedir aos docentes o trabalho que eles fazem atualmente. Isto é, um reforço na docência, em investigação e em outros cargos a desempenhar, onde a investigação tem um peso de 70% na sua avaliação de desempenho docente. Isto tem de ser revisto. Vejam que a carreira do docente do Ensino Superior tem a maior taxa de doença mental em Portugal, a maior taxa de ‘burnout’.

É preciso ter mesmo isto em atenção. Promover um maior financiamento, a revisão da taxa da carreira docente, a revisão do envolvimento dos estudantes na gestão académica, nomeadamente com a participação dos estudantes ao nível da gestão académica nas instituições, no conselho pedagógico, na Assembleia, no conselho científico. Uma das propostas tem a ver com a criação de uma nova estrutura ao nível do RJIES para eliminar os constrangimentos e assimetrias. Ou seja, revendo os apoios aos estudantes atribuídos, independentemente da dívida dos familiares, à segurança social ou à autoridade.

Ainda ao nível do Ensino Superior, queremos a definição do modelo de governação diferenciado para a FCT, com estruturas de gestão diferenciadas, com a direção executiva, conselho estratégico e observatório para a Ciência e Tecnologia. Referir que neste momento a fundação tem demonstrado um funcionamento flutuante, que tem gerado muita instabilidade do ponto de vista do emprego científico. Em 2023, as bolsas dos projetos de  investigação em todos os domínios, não abriram. Os precários caminham em precariedade, o decreto-lei, penso que 57, que foi de integração dos precários, ao nível do emprego científico já prescreveu. O que significa que são trabalhos temporários que agora se têm, mas que daqui a 3 anos vão ficar novamente em situação de vulnerabilidade.

Sobre o trabalho científico há duas vertentes importantes. Primeiro que seja dado incentivo à economia do conhecimento, algo que não tem sido feito. São necessários o modelo de financiamento e o modelo de sustentabilidade económica prevista pelo LIVRE, que tem a ver com a economia do conhecimento, com a abertura do mercado das empresas e uma nova relação entre Ensino Superior, empresas e mercado social. Isto no sentido de criar novos mecanismos de inovação social, de produção científica e de rentabilização dessa produção científica.

Outra proposta é a procura de estabilidade no apoio dos bolseiros dentro do emprego científico, que é emprego que é sempre precário, tendo em conta que o emprego científico não pode continuar a ser feito contrato a contrato. O emprego científico é algo para se tornar, depois, em contratos sem termo. Isso significa que entre a empresa, o Estado, a ONG e o próprio trabalhador,  tem de haver claros e evidentes mecanismos de contratação deste bolseiro, para que seja feito um contrato sem termo.

O que é que o LIVRE quer dizer com “democratizar a produção científica”?

Clara Cruz Santos

Democratizar  a produção científica tem a ver com tornar medidas de ‘open access’, acesso aberto, do conhecimento científico, das bases de dados, ao nível do acesso aos artigos e à sua produção. Algo que já é feito pela maior parte das Instituições de Ensino Superior e pela grande parte da produção científica em outras universidades europeias. Depois  falamos de uma maior integração de todos os alunos, portanto alunos de doutoramento, alunos de mestrado, contribuindo para uma participação social e produção ativa dos estudantes neste movimento produtivo. Queremos fomentar todo o movimento de acessibilidade dos estudantes do Ensino Superior e dos organismos de investigação.

De que modo o Programa Superior + Acessível poderia ser aplicado às Instituições de Ensino Superior em Coimbra?

Clara Cruz Santos

Todos os programas pensados para o Ensino Superior são medidas que já foram pensadas, debatidas, mas nunca implementadas. Logo, todas elas são passíveis de serem implementadas com um novo modelo de governação localizado aqui. A regionalização tem uma função crucial nesta parte. Um novo modelo que abra as portas da Academia para outros agentes económicos e sociais importantes quer, por exemplo, associações empresariais, quer às autarquias, às ONGs. E tem a ver com o aumento de financiamento do Ensino Superior. Portanto, todo este modelo é possível de ser adaptado com estas características.

O LIVRE também pretende defender o combate à endogamia da educação, propondo que os docentes, em todos os níveis de ensino, tenham direito a aposentar-se aos 36 anos de serviço. De que forma é que esta proposta seria viável, considerando a atual crise de contratação de jovens professores?

Clara Cruz Santos

Ela é viável porque isso é exatamente dar possibilidade à contratação de novos professores. A nova proposta pretende que seja dada dignidade à carreira e seja dada a opção de as pessoas poderem e, especialmente, das pessoas que trabalharam no Ensino Superior, pelo desgaste profissional que têm, pela exigência de permanente atualização e investigação, poderem decidir com 36 anos aceder à sua reforma. Ao fazer isto estamos a combater o envelhecimento que existe dos docentes, dos recursos humanos, visível também na Universidade de Coimbra, e abrir portas para novos concursos. É um círculo social democrático que tem como base este comprometimento, muito claro por parte da Reitoria, de que o esvaziamento do local de trabalho vai dar possibilidade de contratação de outras pessoas. Portanto uma coisa depende da outra. Se não houver um, não há outro.

Por último, Rui Tavares admitiu esperar o crescimento do LIVRE a nível parlamentar, acreditando que pelo menos dois outros deputados serão eleitos pelos círculos eleitorais do Porto e Setúbal, além do de Lisboa. Como é que vê a imagem e a ação do partido em Coimbra, que não é considerada nestas previsões?

Resposta de Clara

Coimbra, até este momento, tem uma posição muito residual no LIVRE, têm sido uma força política mais moderada, temos pouca representatividade. Neste momento, e fruto do trabalho feito pelo grupo de coordenação local, nós vimos, com muito agrado, um crescimento abismal de apoiantes do LIVRE.

Pedro Cravino Serra

Essas previsões baseiam-se numa coisa natural. Em Lisboa, temos vindo a crescer e acho que o segundo deputado é quase garantido. Esperamos que o terceiro também. Porto e Setúbal já têm muitos anos de trabalho em cima e para o primeiro deputado é mais fácil do que em Coimbra, se reparar bem nos resultados que tiveram nas últimas eleições.

Não é fácil para quem está a começar, como nós aqui em Coimbra. Obviamente, é um caminho que se faz ao longo do tempo e que vai demorar um bocadinho, mas que tem vindo sempre a crescer. Nós, nas últimas legislativas tivemos cerca de 2000 votos e tenho a certeza de que vamos duplicar esse valor agora, porque as pessoas, nestas eleições em particular, não estão muito pelo voto útil e, portanto, revêem-se no Livre.

Acrescenta Clara Cruz Santos

Eu, em relação ao voto útil, acho que é importante que as pessoas tenham noção que é uma falsa questão. As pessoas pensam que vão dar o voto a fazer contas de cabeça, mas o voto útil é para uma voz uníssona no parlamento. É para que haja normalmente uma maioria, ou para que haja uma representatividade só de algumas forças parlamentares. O que é que isso implica? Implica que não é reconhecido no parlamento o conjunto plural da sociedade.  Vivemos numa cidade com interesses e necessidades diversas. Quanto maior for a representação dessa pluralidade no parlamento, maior será a democracia, a sua voz, a existência de uma voz completa.

To Top