Ensino Superior

Estudantes denunciam falta de posicionamento da DG/AAC face a problemas na academia

Por Camila Luís

Aprovada com unanimidade moção para atribuição de voto de pesar e título honorário a Francisco Leal Paiva, antigo presidente da DG/AAC. Tomás Barros, aluno na FLUC, aborda “situação insustentável” no seio da atividade jornalística e pontua necessidade de maior debate sobre jornalismo na academia. Por Camila Luís

No dia 22 de janeiro concretizou-se a primeira Assembleia Magna (AM) do ano que teve lugar no auditório da reitoria, com início por volta das 17h40. À primeira chamada, o quórum era de 186 associados efetivos, número que flutuou ao longo da sessão. Na ordem de trabalhos constavam os pontos “informações”, “outros assuntos”, “discussão e votação do Regimento Interno da AM” e “discussão sobre a situação da Guerra na Palestina”. Também “a integração da Associação Académica de Coimbra (AAC) no Conselho de Associações Académicas Portuguesas (CAAP)” e “a integração da academia no Conselho Nacional da Juventude (CNJ) como membro observador”.

Carolina Rama presidiu, pela primeira vez, este debate, na qualidade de presidente da Mesa da AM da AAC (MAM/AAC). Na sessão, a estudante começou por propor a alteração da disposição de um dos pontos da ordem de trabalhos da convocatória. A medida consistiu em passar o tópico “outros assuntos”, que, em primeira instância, seria abordado em segundo lugar, para último tema de discussão. A proposta foi aprovada por 141 votos. Seguiu-se o presidente da Direção-Geral da AAC (DG/AAC), Renato Daniel, que congratulou o facto de esta MAM/AAC ser composta por apenas mulheres, o que, a seu ver, representa “um caminho para a verdadeira igualdade”.

Informações

Este momento arrancou com a intervenção do presidente da Secção de Fado da AAC (SF/AAC), Diogo Ferreira, que, em primeiro plano, evidenciou o seu “desagrado” pela realização “tardia” da AM, com uma distância de quatro meses da anterior. O representante da estrutura deu também a conhecer uma nota de repúdio face ao tratamento perante os grupos convidados a atuar no Sarau Académico da Festa das Latas e Imposição das Insígnias de 2023. Pronunciou-se, assim, não só pelo grupo que dirige, mas também pela Tuna Académica da Universidade de Coimbra (UC), pelo Orfeon Académico de Coimbra e pelo Coro Misto da UC.

O dirigente destacou a caução de valor “avultado” solicitada para acesso à refeição social dos Serviços de Ação Social da UC, a comunicação “escassa e contraditória” por parte da organização da festa académica e a escolha da data. Também a duração “excessiva” do arraial e a ausência de licença de ruído que abrangesse a total duração da festa foram pontos apontados por Diogo Ferreira que, no fim, culminaram num “evento fracassado”. O jovem encerrou o seu discurso com o anúncio de que nenhum dos visados iria voltar a participar neste encontro, a menos que a organização seja realizada de outra forma e seja assegurada uma comunicação “simples e direta” mediante as entidades participantes.

Discussão e votação do Regimento Interno da AM

Para o ponto dois, subiu ao púlpito César Sousa, aluno da Faculdade de Direito da UC, que propôs a alteração do ponto seis do artigo 15º do documento supramencionado. A proposta foi aprovada com 227 votos no sentido de modificar o valor de “dois terços” para “maioria simples”, na situação de ser solicitada a adição de novos pontos à ordem de trabalhos. Prosseguiu-se o terceiro ponto na ordem de trabalhos: discussão sobre a situação da Guerra na Palestina. Fruto do alongar deste momento e da gradual diminuição do quórum, Carolina Rama sugeriu que os momentos dedicados ao debate sobre a academia, o CAAP e a CNJ fossem deliberados na sessão seguinte, prevista para o dia 7 de fevereiro. Esta proposta foi aprovada com 111 votos.

Outros assuntos

A reunião desenrolou-se com a discussão do último tópico na ordem de trabalhos, no qual foram debatidas quatro deliberações. Hugo Faustino, estudante da Faculdade de Letras da UC (FLUC), expressou a sua vontade na elaboração de um voto de pesar relativa a Francisco Leal Paiva, antigo presidente da DG/AAC e, a seu ver, também “academista, repúblico, patriota e democrata”. Em complemento, Luís Correia, membro da república dos Galifões, na qual residiu o antigo dirigente, relembrou a importância da Crise Académica de 1962, liderada por Francisco Leal Paiva. Desta forma, o repúblico sugeriu a condecoração do antigo academista com o título de associado honorário da AAC. Com esta proposta, reuniu-se a única votação da AM aprovada de forma unânime.

Em seguida, ocupou o púlpito Sofia Braz, aluna da Faculdade de Ciências e Tecnologias da UC, que reivindicou uma nota de esclarecimento à DG/AAC quanto à manifestação de dia 20 de novembro, protagonizada pelo movimento Fim ao Fóssil: Ocupa!. A estudante apelou à necessidade de posicionamento por parte da AAC no que toca à justiça climática, pois “apenas a ação disruptiva e corajosa pode despertar mudança real e efetiva” e frisou que “só existem dois lados na luta”. Nesse sentido, rematou: “as instituições e autoridades deixaram bem claro de que lado estão, e de que lado estão vocês?”.

O debate continuou com a intervenção de Inês Morais, estudante da Faculdade de Medicina da UC, que leu uma nota direcionada aos dirigentes da academia. No comunicado foram pedidos esclarecimentos quanto à posição da AAC perante a repressão policial contra os estudantes no contexto da luta pela justiça climática. A jovem enfatizou que os alunos cada vez têm “menos voz e autonomia” e fez um apelo para que “seja quebrado o silêncio”.

Tomás Barros, aluno da FLUC, foi o último estudante a pronunciar-se na AM, com um discurso no qual sublinhou a “crise” vivida no universo jornalístico. O estudante enfatizou os riscos associados à prática do jornalismo, que se refletiram nos “81 jornalistas mortos em 100 dias” e nos profissionais sequestrados e ameaçados no seio do conflito israelo-palestiniano até à data. Menciona também que o exercício da profissão, assim como a sua qualidade, são afetados com “a redução dos postos de trabalho, salários baixos e vínculos precários”.

O jovem ressalvou as palavras proferidas pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no 5º Congresso dos Jornalistas, que decorreu na passada semana, descrevendo-o como “palavras bonitas, mas vazias em soluções”. Tomás Barros realçou ainda a importância dos meios de comunicação social da Casa para “informar os estudantes e cidadãos de Coimbra” e incitou à participação destes na greve geral estabelecida no evento. Por fim, sublinhou a necessidade de haver maior debate quanto ao jornalismo no seio da academia, visto que este “se apresenta como cada vez mais insustentável” e que, sem esta área, “quem sofre é a democracia”.

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