Opinião

Concurso de Escrita “Abstenção Jovem”

Publicação dos textos dos vencedores do Concurso de Escrita “Abstenção Jovem”, realizado em parceria com o Jornal Hermes do NEFLUC/AAC e o Jornal “O Despertar”. Joana Valada, estudante do primeiro ano da Licenciatura em Jornalismo e Comunicação, conquistou o primeiro lugar.

Disparos nos pés

Gritamos tudo.
Perdemos a voz.
Mas raramente nos calamos.
Julgam-nos às cegas.
De vontade desenhada em tons transparentes.
Sabemos as regras.
Somos promessa.
Num tremer do corpo que nos desmente.
Fazemos votos de mudança.
Voltamos as costas a passos meio dados.
Como quem recusa uma dança a dois,
a meio de uma noite sem juramentos trocados.
Somos queda antiga.
Quebra participativa.
Ficamos à porta.
Choramos a derrota.
Andamos de baloiço e queremos voar.
Seguimos viagem sem rota.
Sem malas.
Sem bilhete de volta.
Inventamos corridas sem sequer sabermos andar.
Levantamos questões.
Baixamos os braços.
São eleições, são disparos nos pés!
Caneta que não escreve.
Coração que se (res)sente.

Joana Valada, estudante do primeiro ano da Licenciatura em Jornalismo e Comunicação


Para o ano comemoram-se os 50 anos desde o dia em que Portugal voltou a respirar. O dia
em que o povo português voltou, finalmente, a ser livre.
Contudo, parece que 4 décadas de opressão, perseguições e violência não foram
suficientes para marcar a história do nosso país como deveria ter acontecido.
A nova descredibilização nos partidos de esquerda e o crescente apoio a partidos
autoritários, transportam-nos de volta aos dias em que nos foi prometido um novo
Portugal, fundado em Deus, na Pátria e na Família. Porém, tudo o que recebemos foi um
Portugal mergulhado numa ditadura, repleta de caos e medo.
Todavia, para além desses sentimentos, também existiram outros, como por exemplo, a
indignação. A indignação que nos levou à raiva, e que, por sua vez, nos levou à ação.
Demorou anos. Perdemos imensas pessoas pelo caminho – boas pessoas. Mas é como
dizem, certo? “O que não nos mata, torna-nos mais fortes”. E por cada pessoa caída,
outras dez levantaram-se. Por cada voz silenciada, outras mil gritaram no seu lugar.
Jovens, Adultos, Idosos, Homens, Mulheres, todos unidos por uma só causa.
Então, pergunto-me: o que nos aconteceu?
O que aconteceu a todas aquelas pessoas que enfrentaram a PIDE, o Estado Novo, tudo e
todos, sem receios?
O que aconteceu a todos os militares que foram contra tudo o que lhes foi instruído e
escolheram defender Portugal do verdadeiro inimigo?
O que aconteceu aos estudantes que não se calaram e acenderam a faísca da revolução?
O que aconteceu a todas aquelas pessoas que decidiram sair à rua protestar, sabendo que
poderiam não regressar?
Quando foi o momento em que decidimos voltar para casa e conformarmo-nos? Quando
foi o momento em que desistimos?
Muitos dizem que o 25 de Abril só foi possível graças à intervenção das forças armadas.
Bem, eu digo que sem os protestos dos estudantes de Coimbra, em 1969, a história
poderia ter tomado um rumo bastante diferente.
Foram eles, fomos nós, que erguemos Portugal das cinzas. Que mostrámos que ainda
tínhamos luta para dar. Que formámos o símbolo da resistência.
50 anos depois, onde estamos nós?
A fugir e a ignorar uma luta que já batalhámos uma vez e ganhámos, mesmo contra todas
as probabilidades.
Por isso, volto a perguntar, onde estamos, onde estão?
Não é assim que a nossa história acaba. Não pode ser.
Devemos isso a todos aqueles que vieram antes de nós e a todos aqueles que virão mais
tarde.
Somos o povo dos descobrimentos, dos aventureiros, dos destemidos.
Aqueles que ousaram ir a onde mais ninguém sequer pensou.
Onde está essa coragem?
Está na hora de voltarmos às ruas e dizer-lhes que nos lembramos. E que não vamos deixar
que volte a acontecer.
É apenas preciso uma centelha para a floresta arder inteira.
Lara Pires, estudante do primeiro ano da Licenciatura em Jornalismo e Comunicação

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