Opinião

Cartas à Diretora

Xora Diretora,

Costuma-se dizer que as histórias se repetem. Uma dessas já foi há tanto tempo que apenas as paredes desta cidade se mantêm como testemunhas. Uma rivalidade entre duas fações irmãs de uma só mãe. Uma coragem de se impor pelos seus direitos. Até uma segunda revolta, abafada pelo medo, que se tornou num presságio das trevas que cairiam em cima da nossa.  

Bem, para aqueles que a sabem ficam a recordar, os que não sabem ficam a saber. Vou fazer um resumo, que acha Diretora? Uma antiga academia de estudantes separou-se em duas, um clube de estudantes e um dito instituto. Digamos que não se davam muito bem e que, por trocas e revoltas para cada uma ter a sua sede, o clube, que por esta altura fora nomeado de associação académica, teria a sua sede demolida, mas com uma nova prometida. A promessa nunca se concretizou. Com a angústia de se ver opressa de ter uma casa digna, a académica promete que ocuparia todo o colégio onde o instituto permanecia. Demorou, mas o momento chegou em que 40 estudantes se uniram para o ocupar. As suspeitas pelas autoridades levaram-nos a agir mais cedo do que previram. Na aguardada madrugada, sombras negras assaltaram a torre e repicaram intensamente na cabra, hasteando o fardo negro que envergamos para toda Coimbra ver. Tudo, após o estrondo de vitória do morteiro a marcar o domínio total da estrutura.

Décadas depois, tempos negros abalaram o nosso país, a imprensa da universidade abolida e o instituto transferido para o edifício da mesma. A académica é despejada com a demolição do seu Colégio, e por mais promessas tardias, os estudantes ocuparam o instituto irmão da académica. Não houve um desfecho feliz, agentes da polícia publica e de defesa do estado entraram e oprimiram os estudantes até ao largo da sé velha, que nada mais foi do que um sinal do enfurecedor destino que caiu sobre a nossa académica.

Como vê minha Diretora, as nossas lutas persistem, e embora nenhum dos que respire se lembre de tal glória, a tradição e palavras escritas recordam-nos da nossa incansável e eterna luta. Em tempos de tamanha incerteza não só na cidade, mas no país e no mundo, histórias de coragem dão esperança para agir. Num mundo em que o ódio das pessoas chega à morte, ações corruptas que destroem tudo o que temos, com os maiores dos egoísmos, cabe a nós mostrarmos que não seremos assim. As histórias repetem-se sempre, o que revela um futuro incerto, onde tememos não haver segurança ou conforto, assombrados pelas ações dos nossos antepassados. Estas bastilhas apenas serão tomadas com a união dos estudantes, jovens agentes da sociedade. Somos o futuro, e temos de prepará-lo para ser melhor quando o herdarmos. Os espetros vestidos de negro vaguearão pelas estreitas ruas desta cidade a mostrarem o luto e revolta pelos seus direitos, com as labaredas das tochas à procura do seu lar desejado.

José Guilherme C.C.C. Santos

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