Ensino Superior

AM vota moção pela paz no Médio Oriente

Por Iris Jesus

Falta de culpabilização do Estado de Israel em destaque na discussão. Moção proposta pela DG/AAC aprovada. Por Iris Jesus

Na primeira Assembleia Magna (AM) deste ano, realizada pelas 17h40 do dia 22 de janeiro no auditório da reitoria, a tensão acentuou-se durante o debate sobre a situação da Guerra na Palestina, ponto 3 na ordem de trabalhos. Em discussão distinguiram-se duas visões, a moção para a paz apresentada pela Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) e a proposta redigida por um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra (UC). Neste sentido, os representantes de cada projeto apresentaram os seus documentos para votação, com um quórum de cerca de 188 votantes.

Antes de se prosseguir à argumentação, João Vaz, vice-presidente do Conselho Fiscal da AAC (CF/AAC), pediu a palavra. De acordo com o estudante, o início de dezembro pautou-se por uma situação de discórdia entre um grupo de estudantes e a DG/AAC, que “pôs em causa o trabalho do CF/AAC”. Foram invalidadas cerca de duzentas assinaturas, recolhidas pelos proponentes para a organização de uma AM que tivesse como ponto único o conflito israelo-palestiniano, não atingindo, assim, o número necessário para convocação. Em resposta à decisão do CF/AAC, foi espalhado o parecer com uma imagem de uma mão a vermelho e “cúmplices” escrito por baixo. Na ótica de João Vaz, esta resposta “foi um golpe muito baixo” perante a estrutura, que “foi alvo de assédio e difamação”.

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Em remate a esta intervenção, Rodrigo Nogueira, estudante da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC (FPCEUC), desafiou João Vaz para uma conferência de imprensa para confronto de ideias entre o órgão e os proponentes. Acrescentou ainda que o discurso do vice-presidente do CF/AAC visou “apenas desviar-se dos assuntos que têm de ser discutidos”. Sobre a moção proposta pela DG/AAC, o estudante realça a necessidade de se incluir um apelo ao “cessar-fogo imediato”, afirmando que o documento não visa a culpabilização do Estado de Israel pelo conflito.

Debate sobre as moções

José Luz, estudante da Faculdade de Letras da UC (FLUC), reiterou a última questão levantada por Rodrigo Nogueira, demarcando-se, contudo, ao afirmar que o primeiro texto apresentado “é positivo”. Esta posição foi reforçada por Hugo Faustino, aluno da mesma unidade orgânica, que concordou com a moção e argumentou em favor da solução política defendida no documento, considerando-a mais viável no contexto atual. A diretora do Jornal A CABRA, Ana Filipa Paz, pediu também a palavra para argumentar em defesa dos 81 jornalistas vitimados na Faixa de Gaza, apelando à sua menção no documento.

Já o presidente da Secção de Defesa de Direitos Humanos da AAC, Rafael Pereira, considerou a “menção das fronteiras de 1967 dispensável”, referida no ponto 2 do documento proferido pela DG/AAC. Apontou ainda que esta proposta se marca pela neutralidade ao não denunciar o “terrorismo levado a cabo pelas forças israelitas”. Em relação ao documento redigido pelos proponentes, o estudante da Faculdade de Economia da UC (FEUC) atentou que os pontos relacionados com o cessar-fogo imediato e o reconhecimento do Estado da Palestina pelo Estado Português devem ser tidos em conta. Segundo Rafael Pereira, as restantes ideias marcam-se por um “extremismo irreal”.

Ainda em oposição ao primeiro documento, a estudante da Faculdade de Ciências e Tecnologias da UC (FCTUC), Joana Coelho, argumentou que este não contempla a urgência humanitária vivenciada na Palestina nem “a gravidade dos ataques de Israel”. Joana Carvalho, aluna da FEUC, acautelou que a falta de referências às noções de “genocídio”, “cessar-fogo”, “apartheid” e “limpeza étnica” na moção fazem desta um documento “insuficiente”. Os proponentes acusam ainda a DG/AAC de “não reunir medidas concretas”, afirmando que as mesmas se devem “materializar”. Neste sentido, sugerem que, no documento final, conste um apelo a outras associações de estudantes do país para se posicionarem perante o conflito.

Posição do dirigente da DG/AAC

Em argumentação às críticas sobre a “falta de foco” nas dificuldades humanitárias na Palestina, o presidente da DG/AAC, Renato Daniel, sublinhou que a Casa “não faz distinção de vidas”. No que diz respeito à sugestão apresentada pelos estudantes, que visa o corte de relações diplomáticas com instituições israelitas, o dirigente defendeu que “não se deve ostracizar colegas israelitas”. O dirigente declarou: “colocar estudantes uns contra os outros sobre questões de guerra e paz não é o caminho de uma academia que ruma os 50 anos do 25 de abril”.

Em resposta às intervenções anteriores, Renato Daniel consentiu as propostas apresentadas por José Luz, Rafael Pereira e Ana Filipa Paz. Apesar disto, opôs-se à inclusão de um apelo a outras associações estudantis para se posicionarem contra este conflito na moção. O presidente defendeu que a convocação de outros órgãos académicos exteriores seria “redundante”, dado que “a informação vai ser transmitida à comunicação social” e acessível a todos.

O desfecho da deliberação

Após o período de discussão, prosseguiu-se à votação das duas propostas. Apesar da falta de quórum, a moção da DG/AAC foi aprovada com 104 votos a favor, sob a vinculação de Renato Daniel. Durante a AM foram sugeridas propostas para aditamento do documento original aprovado, que vão a debate na próxima sessão, com possível realização no dia sete de fevereiro. Ao fim de cinco horas, a primeira reunião presidida por Carolina Rama terminou pelas 22 horas, sendo o conflito israelo-palestiniano o tema que ocupou a maior parte do debate.

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