Cultura

Acabados de lançar “La Toilette des Étoiles”: Estrelas que brilham mais

Arquivo SJ/AAC

Relê a entrevista aos Belle Chase Hotel presente na edição n°62 do Jornal A CABRA. A banda que, ontem, dia 13 de janeiro, voltou a Coimbra e ao Teatro Académico Gil Vicente, já passou pelas páginas deste emblemático jornal no ano 2000.

A “cama de banho das estrelas” é um luxo requintado, o perfume suave e as tonalidades claras apresentam umbrilho incandescente de um acabado de limpar. De regresso ao Hotel, os Belle Chase apresentam o novo trabalho no TAGV.

Depois do aclamado “Fossanova”, os Belle Chase Hotel saem de uma garagem nos arredores de Coimbra para concertos por todo o país e aterram em Paço D’arcos para gravar “La Toilette des Étoiles”, com Joe Gore. Disco gravado e férias merecidas, onde ensaiam novos temas, versões e interpretam “Donzela Diesel” para o tributo a Rui Veloso “Ar De Rock – 20 anos depois”. Sem grandes expectativas e com a noção de dever cumprido, o projectomusical mais conceituado da nossa Lusa Atenas regressa em força e fala com A CABRA. 

Como é que descreves os primeiros anos de vida dos Belle Chase Hotel? 

Pedro Renato: Por estranho que pareça eu não pertenço àformação inicial, os então “Zorg”, onde já ensaiavam J.P.Simões e Antoine Pimentel. Eu fui convidado em Agosto de 95, tal como o João Baptista e com as minhas megalomanias fui convidando músicos e mais músicos (a Filipa, os vários teclistas até chegar ao Luis Pedro, o Sérgio, o Marco, a Raquel e mais alguns pelo meio). O percurso a partir daí foi bastante normal e saudável, o maravilhoso roteiro dos bares, do Luso a Praia de Mira, de Condeixa ao Santa Cruz, Mostras de Música Moderna como a da Pampilhosa… A primeira maqueta surge lá para o fim de 95, início de 96, e pelos tempos ficaram temas como “Spirit Of The Blues“ ou “Towards The Sun”, que nunca mais foram lançados em disco. 

No início ainda estávamos a tentar ver com que corrente musical é que nos identificávamos, a tentar arranjar soluções de compromisso entre todos os elementos. Em 1998 surge uma maqueta com versões quase definitivas de alguns temas que iriam integrar o “Fossanova”. Na altura não havia dinheiro para gravar discos, se bem que hoje em dia também não há muito. 

Como é que foi a gravação do último “La Toillete desÉtoiles”, comparativamente ao “Fossanova”? 

PR: Na gravação do “Fossanova”, houve uma pressão enorme, a Lux era uma editora com meios muito escassos e ainda não se conhecia a possibilidade do disco sair pela NorteSul. Nós , eramos 9 elementos e precisávamos de umas mil e horas de estúdio e tivéemos que gravar tudo em cerca de cento e oitenta, durante quase um ano, com pausas pelo meio. 

Este último foi um álbum preparado com muito pouco tempo, houve muitos concertos pelo meio e acabou por ser basicamente feito em estúdio, num mês. Desde o processo de composição até aos arranjos, o JP estava a escrever letras ao mesmo tempo que gravava as vozes, curiosamente também aqui houve muita pressão. 

J.P. Simões: O processo de composição das letras teve, naturalmente alguns pontos em comum, nem que seja eu, a identidade orgânica. A diferença passou também pelo facto de o primeiro álbum ser muito mais um escrutínio de relações íntimas vividas, transformando-as em histórias, enquanto este teve uma visão bem mais afastada e crítica relativamente aos personagens e às narrativas, que foram mais depuradas. Desde o tempo que tivemos para fazer o disco (que foi pouco) até aos métodos de trabalho (e falta deles), passando pelo resultado, acabou por ser um processo mais faseado e não houve aquela explosão de “composição desenfreada” que caracterizou “Fossanova”. 

Satisfeitos com “La Toilette des Étoiles”? 

JPS: Muito, com o trabalho, com toda a gente, com o produtor, mas enfim, eu não tenho uma distância suficiente para fazer uma apreciação crítica. Sou muito suspeito para dizer se o disco é bom ou mau, acho que há um sentido de continuidade relativamente às formas utilizadas, às narrativas e ao tom trágico-cómico que nos vêm caracterizando desde o “Fossanova”, embora num trabalho mais depurado, com menos instrumentos em cada música, menos ostensivamente barroco, melhor produzido e mais simplificado, não sendo necessariamente mais simples, porque não o é. 

O primeiro single “São Paulo 451” é cantado em português com sotaque brasileiro e foi censurado na Antena 1, Rádio Renascença e RFM e preterido na Comercial em relação a “Donzela Diesel”…

Luis Pedro Madeira: O tema era, no início, composto para experimentar o material novo que tinha lá em casa. Pegámos na ideia e, com a banda toda, o tema ganhou outra volta. O J.P. fez aquela letra que estava, pelo menos, bastante distante do que eu podia ter imaginado para a música. 

A censura do tema não é nada que me espante, é normal que isso aconteça, acontece há anos neste país. Passam as coisas mais ordinárias e essas sim violentas, mas em inglês, e quando vem alguém neste português brasileiro dizer “merda de pombo“ fica logo tudo muito espantado e exclamam “Não pode ser! Não se pode passar uma coisa com um palavrão desses…” Neste país, infelizmente, é normal.

Constase que o concerto de apresentação ( emCoimbra) poderá ter surpresas. O que é que podemos esperar? 

PR: Estamos a trabalhar na preparação de um concerto especial que contará com uma secção de cordas e outra de metais. 

Pretendemos apresentar na íntegra o novo disco e tocar versões alternativas de temas do “Fossanova”.

Para além disso, ainda contamos fazer algumas versões como a do “I Love You, But I Don’t Need You“, que estamos a pensar gravar. 

Hugo Ferreira 

Entrevista realizada no “Estetoscópio” 

RUC (107.9 fm) Quarta-feira,00h00

O regresso dos Belle Chase Hotel e um compêndio de grandes composições. É, provavelmente, o longa-duração que eles sempre quiseram gravar e dissipa todas as duvidas que normalmente se colocam num segundo trabalho de uma banda. 

Não há aqui temas fáceis e simples como “SunsetBoulevard” ou “Emotion & Style”. mas “La Toilette desÉtoiles“ é um dos melhores cd’s que ouvi nos últimos tempos. 

Do produtor Joe Gore já se conheciam os créditos ao lado de nomes como P.J. Harvey, Tom Waits, OranjSymphonette e Tipsy. 

Entre o épico e o conceptual estamos perante um álbum que se afirma como um todo. É difícil escolher faixas num disco que se escuta freneticamente do inicio ao fim. como uma manta de retalhos arquitectada por um Woody Allen.

O swing de “Not Searching for the real thing” milita ao lado da melancolia de “Mirago” ou “Nimaroi” (inspirado num conto de Mia Couto), numa viagem que começa com um tango e passa pelo rock apoteótico de “’Paganini’sFire”, atingindo o seu ponto máximo em “’The Perfume ofthe Stars”. Seria injusto não referir a maior participação de Raquel nas vozes e na composição e o imaginário de Ennio Morricone ou dos Mr Bungle em “Light Movie”, tal como a cinematográfica “Star Patrol” que ilustra “Respirar (Debaixo de Água)” de António Ferreira. 

Os 44 minutos sabem a pouco e algumas opções de produção ou de grafismo podem ser discutíveis num trabalho de músicas adultas e letras muito acima de qualquer expectativa (Oiça-se “Shimmering DimmeringColored Dingaling”) provam que as estrelas iluminam o caminho dos hem aventurados. 

O concerto de apresentação de “La Toilette des Étoiles” está marcado para o dia 29 de Novembro, a partir das 21.45 no Teatro Académico de Gil Vicente e os bilhetes variam entre os 100$00 para estudante e os 150$00 para não estudante.


Edição n°62, página 8, do Jornal Universitário de Coimbra – A CABRA

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