Ensino Superior

Alunos de terceiro ano vivem Festa das Latas pela primeira vez

Ana Filipa Paz

Novos alunos afastados da tradição e da Academia.  Finalista da Licenciatura em Bioquímica “nunca viveu a latada nem conhece a sua história”. Por Ana Filipa Paz

Em pausa desde 2019, a Festa das Latas e Imposição das Insígnias regressa com um ‘warm-up’ nos Jardins da Associação Académica de Coimbra, esta terça-feira, dia 27. Depois de dois anos parados, a Latada volta a adotar os moldes anteriores à pandemia. Estudantes entrevistados revelam não conhecer a história da Festa das Latas e mostram-se entusiasmados por poder vivê-la pela primeira vez.

Começou por ser realizada no último dia de exame de cada faculdade, quando os estudantes que já haviam terminado o ano letivo tocavam as latas de porta em porta para incomodar os que permaneciam a estudar. As Festas das Latas são conhecidas por instigar a discussão entre os estudantes e a autoridade, pelo que, ao longo dos anos, foi necessário encontrar alternativas ao programa.

Até à Crise Académica de 1969, o cortejo da Latada era também um momento de manifestação contra o regime ditatorial, pela realização de cartazes satíricos levados pelos caloiros. Esta tradição é mantida pelos estudantes, que não raras vezes enunciam mensagens de crítica social e de reivindicação estudantil. Hoje, as Festas das Latas e Imposição das Insígnias são, em primeiro lugar, um facilitador da integração dos estudantes que acabam de chegar à Academia. 

Durante a sessão de ‘warm-up’, Diogo Videira, aluno do segundo ano da licenciatura em Estudos Artísticos da Faculdade de Letras (FLUC), conta ao Jornal A CABRA que, apesar de conhecer pouco sobre a festa, acredita que “é uma boa oportunidade para os mais novos conhecerem a história da universidade”. Rita Veloso, estudante de primeiro ano da licenciatura em História da FLUC, concorda e adiciona que a semana de atividades “permite ainda conviver com pessoas das várias faculdades”. 

Maria Godinho, aluna de primeiro ano da licenciatura Bioquímica na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), é um exemplo do afastamento dos novos alunos em relação à tradição coimbrã. A recém estudante universitária admite “não ter expectativas porque não sabe o que é a latada”. Também Joana Campanhã, apesar de finalista da licenciatura em química na FCTUC, “nunca viveu a latada nem conhece a sua história”. No seu primeiro ano “com a pandemia, não pôde aproveitar”, explica.  

Vários estudantes entrevistados partilham a opinião de Laura Rojo, estudante de segundo ano da licenciatura em Jornalismo e Comunicação na FLUC, que confessa que “fica desapontada com a escolha de convidados, pois devia haver mais diversidade”. Diogo Videira acrescenta a necessidade de “existir uma maior acessibilidade monetária para os estudantes que já lidam com imensas despesas”.  Outros dos problemas levantados pelos jovens universitários estão relacionados com os constrangimentos das filas, da dificuldade em adquirir e usar as pulseiras ‘cashless’ e, ainda, a falta de caixotes do lixo e a pobreza das condições higiénicas no recinto das noites do parque. 

A repetir o ano num curso diferente, Vítor Hugo, aluno de primeiro ano na licenciatura em História da Arte na FLUC, espera que “a festa seja mais dinâmica e que se recupere o que foi perdido depois deste tempo parado”. O estudante lamenta a evolução da tradição pelo facto de “antigos estudantes não poderem ver continuar o que construíram há muito tempo”. Já Rita Santos aplaude a mudança, uma vez que “a criação de tradições novas é o curso natural da história humana”. Laura Rojo defende que “ainda há muito para evoluir, como o machismo internalizado de que não se apercebem, mas que os novos estudantes devem trabalhar por melhorar”.

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