Ciência & Tecnologia

Manuela Alvarez: “Uma vida longa não está relacionada com ser saudável”

Mafalda Pereira

Conferencista aponta que condições ambientais e estilo de vida podem ser responsáveis pelo envelhecimento do organismo. Idosos são vistos como parte desinteressante da sociedade. Por Mafalda Pereira

O envelhecimento da população portuguesa foi tema de debate no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (DCV). Manuela Alvarez, professora do DCV e organizadora do projeto “Ciclo às sextas”, indica que o estilo de vida, os marcadores genéticos e o meio ambiente podem estar por trás deste processo.

Após fazer uma breve distinção entre idade biológica e idade cronológica, Manuela Alvarez referiu o estudo que está a desenvolver em conjunto com uma equipa multidisciplinar. O objetivo do estudo é analisar fatores relacionados com o estilo de vida de uma população, de modo a traçar um quadro abrangente sobre o envelhecimento e inferir a idade biológica, que é relativa ao estado de saúde.

Apesar de a ideia inicial ser analisar os habitantes de algumas freguesias, o projeto teve de se alargar para o distrito de Coimbra. “Desde a Figueira da Foz à Pampilhosa da Serra, há uma enorme diversidade de ambientes físicos, sociais e económicos que podem contribuir para uma diferença significativa na longevidade das populações locais”, esclarece a professora.

O acesso à informação nem sempre é fácil e a recolha de dados torna-se uma tarefa demorada. Tratando-se de uma população idosa e de regiões mais pequenas e homogéneas, os materiais necessários para a análise nem sempre se encontram disponíveis. Uma das  dificuldades descritas pela docente do DCV foi o facto de “os dados serem inferidos, não medidos in loco”, em muitos concelhos. “Quando se quis saber a variação média da temperatura, foi preciso esperar meses”, conclui.

A abordagem feita durante a recolha de informação tem de ser cautelosa. Manuela Alvarez explica que, nas zonas onde há menos literacia, a equipa não pode “simplesmente bater a uma porta e perguntar se a pessoa quer participar num estudo de investigação”. A professora explica que os habitantes dessas localidades tendem a ver um trabalho de investigação como “uma coisa estranha”.

O mito da velhice saudável

A professora do DCV acrescenta que “a sociedade acha os idosos pouco interessantes” e comenta que estes muitas vezes são vistos como uma sobrecarga económica e social. “Não é essa perspetiva que queremos alimentar”, certifica. Sendo a Antropologia a ciência que estuda as pessoas e comunidades, e tendo em conta que o número de pessoas a atingir idades avançadas é cada vez maior, a organizadora do “Ciclo às sextas” ressalva a importância desta camada populacional para a sociedade.

“Partimos do pressuposto de que quem vive muitos anos tem muita saúde, mas uma vida longa não está relacionada com ser saudável”, constata. A palestrante projeta na tela branca, para todo o auditório, uma análise feita nos países da Europa que estima que os homens vivem com saúde até aos 63,5 anos e as mulheres até aos 64,2. “À medida que a idade avança há uma série de doenças que se vão desenvolvendo, como as doenças cardiovasculares”, expõe.

Manuela Alvarez menciona o consumo de álcool e tabaco, a poluição, a temperatura ambiente, humidade e altitude como fatores tributários para o envelhecimento do organismo. Acrescenta que a partir dos 25 anos já se detetam diferenças com o avançar da idade. “Esta não é uma questão para pessoas de 40 anos”, conclui.

“Ciclo às sextas: Antropologia Aplicada a Contextos de Vulnerabilidade” é uma iniciativa criada este ano que decorre todas as sextas-feiras do mês de novembro. Para além das vozes de professores e profissionais de diversas áreas, constam também do programa as de estudantes. O objetivo é dar a conhecer como a Antropologia está presente nas temáticas da sociedade.

Fotografia de destaque: Manuela Alvarez apresenta conferência no Departamento de Ciências da Vida

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