Cultura

Festival Caminhos do Cinema Português 2018 abre com viagem no tempo

Vittorio Alves

Fernando Pessoa e ditadura militar recebem destaque no primeiro dia do Festival. Falta de adesão da comunidade estudantil continua patente no evento. Por Maria Luísa Calado e Rafaela Chambel

Começou a 24ª edição do Festival Caminhos do Cinema Português. Filmes foram exibidos ao longo da tarde de sábado. A noite, por sua vez, trouxe consigo a abertura solene. O vice-diretor do festival, Tiago Santos, sublinha que os Caminhos tornam “a cumprir o mote de mostrar o melhor do cinema português”. Ano após ano, “as temáticas acompanham o que é produzido a nível nacional”, esclarece o vice-diretor.

A sessão de abertura fez-se acompanhar de duas peças com referências vincadas na história lusitana. A primeira, “Fernando Pessoa Salvou Portugal”, “cruzou um tom de comédia com uma dimensão literária mais ousada”, classifica o vice-diretor. Nesta peça, o poeta português é convidado a “casar a poesia com a publicidade” para um ‘slogan’ da marca Coca-Cola. O trabalho resultante é considerado uma afronta ao moralismo do Estado Novo.

Em sequência, a longa-metragem “Caminhos Magnétykos” apontou para “uma realidade cada vez mais próxima”, conforme menciona o realizador, Edgar Pêra. O cineasta refere-se à “tomada de posse da extrema direita através de eleições democráticas”. A peça, situada numa versão distópica da Lisboa pós 25 de abril, é definida pela “variedade de camadas de som” e traduz os lados trágico e cômico da “importância dada ao dinheiro e dos valores que com ela se perdem”.

“Coloca os espectadores em contacto com os protagonistas dos filmes que acabaram de ver”

O Festival Caminhos, que já vai a quase um quarto de década, nem sempre contou com banca de jurados. Foi a partir de 1997 que passou a uma dimensão competitiva e começou a premiar e a categorizar as peças apresentadas. O formato que é exposto na 24ª edição assumiu as suas feições mais recentes com a revolução digital. As produções anuais cresceram de forma significativa e os Caminhos “ultrapassaram a dimensão original”, refere Tiago Santos.

Todavia, o vice-diretor refere que “esse crescimento, a nível de interesse nacional e cinematográfico, não é respondido pelos possíveis espectadores da Universidade de Coimbra”. Tiago Santos acrescenta que, mesmo com um maior investimento na divulgação em redes sociais, a comunidade estudantil não adere. O vice-diretor explica uma eventual falta de apelo aos estudantes pelo facto do evento se caracterizar por uma “seleção diversificada de peças que não são tradicionalmente consumidas pelas massas”. Ainda assim, hoje contou com a sala cheia.

Do voluntariado à Seleção Ensaios: o contributo dos estudantes

As formas que o voluntariado tomou nos dias de hoje tornam possível conciliar a vida académica com a associativa. O Festival Caminhos contém um variado leque de opções nesta vertente. Ainda assim, o vice-diretor afirma que “as pessoas apenas estão dispostas a colaborar num evento pronto” e que “não há pré nem pós-produção, que são as partes mais difíceis”.

Na ‘Seleção Ensaios’, qualquer aluno com uma peça pode propô-la para divulgação no festival. O vice-diretor afirma que é criado um “combinado de cinema académico de alta qualidade”, e que, neste seguimento, “os Caminhos contribuem para mostrar o futuro do cinema português”.

Domingo, dia 25, Tiago Santos salienta a presença de Bruno Gascon com a primeira exibição em Coimbra de “Carga”. Conta também com Miguel Borges e Vítor Norte. O vice-diretor elogia a faceta do evento que “coloca os espectadores em contacto com os protagonistas dos filmes que acabaram de ver”.

Fotografias: Vittorio Alves

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