Ciência & Tecnologia

Impacto da Comunicação e Tecnologia: “Videoaula vs. professor”

André Crujo

Investigador principal do ICS da Universidade de Lisboa alerta para os perigos da mercadorização. Algoritmos podem influenciar opiniões do público. Por André Crujo

Faltaram cadeiras para acomodar toda a audiência que, esta sexta-feira, acorreu à conferência protagonizada pelo investigador principal no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, José Luís Garcia. Das duas às cinco, as tecnologias da informação foram o mote para a palestra na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

“A área da comunicação é decisiva na nossa vida”, afirma José Luís Garcia. As tecnologias da informação “sustentam os processos contemporâneos, tanto no domínio comunicacional como no biotecnológico”, anuncia o investigador. O mesmo questiona se as pessoas apenas se interessam pelo que gera dinheiro ou pelo que chama a atenção.

A influência monetária e dos algoritmos na opinião pública

O investigador afirma que “é a partir da comunicação que se constrói a cultura” e completa que esta “cria sentido para enfrentar o mundo”. Os suportes tecnológicos da cultura atravessam o processo comunicacional. Assim, é possível estabelecer uma relação entre a informação prioritária e o algoritmo que a seleciona.

Este algoritmo envolve o utilizador numa bolha: reforça a informação desejada e afasta a que contraria as suas preferências. O orador alertou para o perigo da manipulação resultante. “Capitalismo algorítmico” é um dos nomes dados ao fenómeno em que as informações do consumidor se tornam no produto comercializado.

“O dinheiro faz aumentar a velocidade da inovação técnica” – é através desta premissa que o investigador justifica o percurso de mercadorização do mundo. Este termo descreve a entrada de discursos e práticas mercantis nas esferas da vida social e é a razão para a venda destes dados. “Tudo o que se vende deve ser produzido?”, questiona o palestrante, ao pôr em causa a ética deste ato, que pode comprometer a privacidade do público.

“Convencer é vencer”

A informação preferida pode ser utilizada para favorecer os ganhos de empresas ou opiniões políticas. O facto de apenas ser apresentada a informação de um lado pode levar a um “fanatismo” devido às opiniões opositoras não aparecerem justificadas, defende. “Convencer é vencer”, recorda José Luís Garcia, e associa este tipo de divulgação a uma propaganda que visa controlar os utilizadores.

O conteúdo destinado às massas também é beneficiado pelo algoritmo. Isto possibilita ofuscar informações com menor visibilidade e levou o orador a perguntar: “só o que tem atenção é que interessa?”. Da conferência para o palco, o investigador usou o exemplo do teatro para ilustrar a sua tese. Defende que não é preciso optar entre uma peça clássica sem público e uma contemporânea de casa cheia. “Não tem que ser uma dicotomia: a peça clássica adaptada pode apelar a públicos diferentes”, sublinha José Luís Garcia.

“Não é por lermos o livro de um ‘chef’ de cozinha que nos tornamos num, mas a fazer um estágio com ele”, declara o investigador para enfatizar a importância do contacto com humanos. Reforça a ideia ao falar da relevância que comunicar “sem máquinas” tem na nossa vida e como há coisas que não devem ser feitas no ciberespaço. Conclui ao deixar a seguinte questão no ar: “Que tipo de comunicação queremos? A videoaula ou o professor?”.

Com Maria Francisca Romão

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